Filetes

Não sei. Talvez seja o pressentimento da iminência do desastre. Como Berlim Ocidental nos idos de oitenta, ali na linha da frente da Guerra Fria (e quantos dos que me lêem terão vivido, em vez de ouvido, esses anos?), à espera da invasão, das bombas, do desastre e entretanto a viver como se já não houvesse amanhã, futuro, esperança. O desespero como mola criadora, nunca a cidade foi tão viva, tão criadora, tão centro da cultura contemporânea (excepto, talvez, nos anos 20, outra década de niilismos, antes do zero absoluto). Divirjo.

Lisboa.

Restaurantes cheios e a não aceitar convivas sem marcação. Bares, esplanadas e cafés ocupados a horas nocturnas, dias de semana, locais improváveis e fora da batida Área Turística de Incentivo Oficial. Como se o amanhã seja radioso ou não vá existir amanhã para pagar a factura do cartão.

Será só a moda a aproveitar? Estarão desertos os menos bafejados pela pouco previsível equação do gosto mediático?

Saio de uma tasca chic à beira rio fechada a clientes sem reserva e percorro as poucas centenas de metros que a separam de um local tradicionalizado num guia do qual não recordo o nome mas que me deixou a memória da recomendação. Igualmente cheio, uma última mesa livre, vizinha dum grupo televisivamente reconhecível, garantia provável de uma boa escolha.



Nem por isso. Ementa de pratos "tradicionais" (não confundir com regionais) previsíveis, bifes, filetes, polvos, bacalhaus. Filetes pouco vivos com um inaceitável arroz de feijão, cozido para lá de qualquer paciência. Salada de alface e tomate com milho doce a tiracolo. Bifinhos razoáveis com batatas genuínas mas mal fritas. Carta de vinhos variada e com preços razoáveis. Conta não muito escaldante, um bocadinho acima da qualidade do experimentado.



Como esta expectativa do futuro. Sem necessidade de registar e sem vontade de conhecer.

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