Culinária de Lisboa #30 - Salada de sardinhas de conserva

Querida Mô,

Agora que a Primavera deixou de ser uma novidade e se instalou confortavelmente, com a sua temperatura regulamentar e os concertais passarinhos nas árvores (que, apesar do aumento das faixas de rodagem e dos lugares para estacionamento se vão mantendo muitas), agora que o Tejo é azul em sintonia com o céu, aumenta a vontade de esticar até tarde o almoço num dos promontórios sobranceiros à urbe, tornando o momento referenciável na nossa memória.

Infelizmente, a cidade continua parca em gente imaginativa (a maior parte enredada nas imperiais inépcias de quem autoriza e, normalmente, inveja, nos pequeninos "mas" que surgem profusos em resposta a tudo o que se indicie diferente) e locais de lavar a vista, com alimentação a condizer, são parcos e impeditivos a maioria de uma estadia prolongada. Não sobram restaurantes como os cafés de outrora onde uma tarde inteira era paga pelo preço de uma bica.

Queixei-me à João e ela desafiou-me para um piquenique em Santa Catarina. Que não, protestei, coisa de saloio - farofeiro, como se diz aí.
Jardim de Santa Catarina, 1969
(Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal, ; Autor: Armando Serôdio)

Você está é com medo, lançou-me. Do tráfico ou de ousar a diferença perante a gentinha que passa a vida a criticar?

Ofendi-me. E ontem lá tive a minha tarde sabática, em contemplação do rio e da outra banda, sob a égide do Adamastor, criancinhas aos gritos a correr atrás da bola, ocasionais turistas e clientes e fornecedores em atividades escuras feitas às claras.

Adamastor, Jardim de Santa Catarina
(Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal ; Autor: Fernando Martinez Posal)

A João esmerou-se, levou uma cesta linda, trazida de Londres há décadas, guardanapos e toalha a condizerem, pratos, copos e talheres bem organizados e ainda espaço para as vitualhas. Ter-me-ia contentado com morangos e champanhe, mas a João chamou-me possidónio por pretender recriar Glyndebourne em Lisboa. Assuma-se lisboeta, menino, com classe mas lisboeta, ralhou. Reservámo-nos assim para tudo a que um protegido das Tágides pode aspirar: um carrascão de adega, desencantado pela João através dos seus conhecimentos, queijinhos frescos e pão de Mafra, peixinhos da horta e pasteis de bacalhau e, oh requinte!, uma salada de sardinhas de conserva que principiei por desdenhar mas que, assim que provada, me levou direitinho à meninice perdida. Lembra-se dos Verões na Praia das Maçãs? Era assim de simples, de saborosa, de despreocupada. Como esse tempo que lá está.


SALADA DE SARDINHAS DE CONSERVA

4 latas de sardinhas em azeite; 1 alface; azeitonas verdes sem caroço; 3 ovos cozidos; azeite e vinagre q.b.; mostarda.

Escorrem-se as sardinhas. Cortam-se as folhas de alface em pedaços ligeiramente superiores aos lombos, colocando-se sobre cada um, uma sardinha.

Cortam-se os ovos em rodelas, distribuindo-se em redor das sardinhas.

Faz-se uma emulsão com o azeite, vinagre e mostarda com que se regam as sardinhas.

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