Culinária de Lisboa #33 - Lulas Grelhadas

Querida Mô,

O seu Brasil - melhor, o seu Rio de Janeiro que foi, durante muito tempo e antes deste turismo globalizado que coloca os destinos mais exóticos ao alcance do crédito de qualquer um, o sinónimo desse imenso continente que fala português com açúcar - era, nos anos e anos que durou a nossa evolução para a contemporaneidade, a praia desejada de qualquer português. Bikinis reduzidos - quando por aqui os biquinis que, tímidos e censurados, apareciam eram uma combinação de cuecas de gola alta com soutiens de caixa reforçada e alças com a largura de cintos -, corpos esculturais moldados pela secular combinação de genes com as caminhadas na areia e a frequência do mar, e uma descontracção total, ah quão grande o oceano se tornava a separar-nos!


Lisboetas na praia de Algés, 1912
(Fonte: Arquivo Fotográfico de Lisboa ; Autor: Joshua Benoliel)


Lisboetas na praia de Algés, 1912
(Fonte: Arquivo Fotográfico de Lisboa ; Autor: Joshua Benoliel)
Mas lá veio a revolução - uns anos depois da Revolução... - e a globalização e a Internet que é uma teleobjectiva a comprimir perspectivas para todos os que lá se põem à janela e as praias daqui são as praias daí (acho que são mais porque nunca vi nenhuma brasileira a fazer topless nas praias dos machões cariocas).

Curiosamente, o Rio e Lisboa fizeram percursos inversos na sua relação com a beira-mar. Cidade interna, o Rio desenrolou-se ao correr da costa, ganhando praia e mar - Copacabana, Ipanema, Leblon, a Barra. Lisboa ignorou a almofada do Tejo e partiu para o interior em busca de novos leitos. O Rio ficou marítimo; Lisboa planáltica. O Rio vestiu-se de garota de Ipanema; Lisboa enrugou e acinzentou.

Zona ribeirinha, entre o Largo do Chafariz de Dentro e Santa Apolónia. Sobreposição do levantamento de 1856 e a actualidade.
(Fonte: Google e CML) 
E mesmo assim, nem a praia pisada pelos bárbaros cruzados que por aqui deram uma mãozinha a Afonso Henriques, nem as areias que acolheram as tendas do castelhano genro de Fernando, nem mesmo a praia dos Algarves que bordejou o sítio que viria a ser a estação ferroviária de Santa Apolónia sobreviveram a esta fuga. Subjugadas por aterros e cais industriais, amnésias e indiferença.

Praia dos Algarves
(Fonte: Arquivo Fotográfico de Lisboa)
Praia dos Algarves: que nome de ironia para a beira-rio industrial registada nas fotografias que nos legaram! Gosto de a imaginar rodeada de tascas com enferrujados e activos fogareiros por porteiros, cheios com peixe fresco, acabado de chegar nas plurais chatas, canoas, faluas. Ou com carnudos chocos, bem negros. Ou infantis lulas, em apronto para uma juvenil convivência com batatinhas novas, manteiga e limão.



LULAS GRELHADAS

1 kg lulas pequenas; 600 gr batatas novas; 1 ramo de salsa; 2 limões; manteiga q.b.; sal e pimenta

NOTA
Para a grelha, são as lulas pequenas a melhor opção, por apresentarem carne mais tenra.

PREPARAÇÃO
Abrem-se as lulas no sentido do comprimento e barram-se com manteiga. Grelham-se dos dois lados, com atenção extrema para nele repousarem o menor tempo possível.

Cozem-se em vapor as batatas com casca com o líquido aromatizado com um punhado de oregãos. Derrete-se a manteiga em lume muito brando e junta-se a salsa, picada.

Regam-se as lulas com sumo de limão e serve-se com as batatas (se forem pequenas e suficientemente novas, pode-se manter a casca), acompanhado com o molho.

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