As Peixeiras de Lisboa, 1940

Curioso texto, publicado numa Revista Municipal da Câmara Municipal de Lisboa, em 1940. Outros tempos - havia "fregueses", havia mercados a ser protegidos da venda ambulante, havia pescadas e pargos em profusão e ao alcance de parte significativa da população lisboeta, havia polícias "bons e maus", posturas que impediam as pessoas de andar descalças. Falar de sindicatos e "política" num boletim municipal na vigência da Ditadura afigura-se estranho e... no entanto, assim foi, preto no branco.

Do texto, fica a ideia de uma Lisboa - se bem que mais estratificada - mais humana, mais pausada. E aquelas pescadas deviam saber bem melhor.

"Houve um tempo em que Lisboa dispunha dum friso de peixeiras decorativas e trajadas ao uso de Ovar, esbeltas como bailarinas, garridas como figurantes folclóricos. Vinte anos passaram e a peixeira perdeu o seu pitoresco, enquadrou-se no ambiente citadino, vestiu-se dos tons neutros, acinzentados, em voga nas civilizações feitas por maquinaria e carvão. As "ovarinas", as "varinas", são agora, simplesmente, as "peixeiras".

Varina
(Autor: Amadeu Ferrari ; Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa)
Mas o que é, como vive, o que pensa, o que quere, a peixeira dos nossos dias?

A senhora Rosa Pereira, de 33 anos, casada, com 5 filhos, natural do Lugar do Cimo da Vila, concelho de Baião, distrito do Porto, senta-se em frente de mim, depois de ter feito a sua vénia de cortesia ... A canastra do peixe ficou lá fora à porta, mas mesmo assim um violento cheiro a pescado invade o aposento, como se uma onda do largo entrasse com ela. Veste de chita clara, com saia travadinha, curta, a blusa de mangas arregaçadas, o avental orlado de renda. Traz um lenço garrido a pender do cabelo, oiros modestos nas orelhas e no pescoço. Os pés, sem meias, escapam-se das chinelas.

Diz-me que mora na Azinhaga de Santa Luzia, para os lados do Areeiro como muitas outras peixeiras de Lisboa. Eu estranho a informação. Lembro-me que a tradição lisboeta se prende à vistosa varina da Madragoa e da Alfama, a varina da saia rodada, a varina do "Tom". Ela insiste, porem em dizer-me que as peixeiras preferem, agora, para morar, os subúrbios da cidade e a sua periferia. No Alto do Pina, na Charneca, (ali ao Lumiar), em Sacavém, nos Olivais, no Casal dos Mochos (que vizinha com o Campo Pequeno), e outros arruamentos pobres e distantes, abundam as peixeiras. Tôdas as manhãs, engulido à pressa o café, ei-las que vão chinelando pelas ruas ainda desertas a caminho da Ribeira Nova. A lonjura é grande, mas a varina é forte.

- Varinas, é um modo de dizer ... Interrompe ela, como quem põe os pontos nos i i. Essas que vinham de Ovar, com a saia de barra. a cinta, o chapéu redondo, hoje em dia são poucas. Essas é que são mesmo varinas. Cá nós somos peixeiras, e viemos donde calha. do Algarve, do Douro, da Beira ...

Contou-me então como saiu do doce cantinho provinciano para vir cumprir o seu destino no grande torvelinho de Lisboa.

Tinha 13 anos. O pai trabalhava numa fábrica de tejolos, lá na terrinha. Contratado em melhores condições, aceitou um lugar na cidade. Ela, mal aqui chegou. começou logo a trabalhar. Ganhava 25 tostões pela pena de cada dia de 9 horas curvada ao ofício: 9 horas verdadeiras, e um ofício duro. Foi crescendo, foi-se especializando, e acabou por ganhar 6$50. Era a jorna maior dessas operárias, ao tempo. Entretanto tomou-se bonita, foi requestada, amou, e casou. O marido também trabalhava na fábrica de tejolos. Veio o primeiro filho. Por via das doenças do pequeno largou a fábrica e meteu-se na venda do peixe.

- Porque assim olhava mais pela criança, e faltava à venda quando era preciso ...

Inquiro dos lucros do seu negócio. Ela responde cautamente.

- Há dez anos, era bem bom ... Agora, depois da guerra, é o pior que se faz por aí... Não há peixe no mar, a carestia é uma coisa por demais ... E quando se lhes pede caro, as freguesas não compram. Hoje tenho 8 tostões de lucro ... O mais que faço, num dia bom, é 12 escudos ... Mas isso é lá de longe em longe ...

Esplica-me então como se desenvolve o negócio do peixe.

- São grandes vapores, que vêm desses mares, cheios de gêlo, de sal, e com tanto peixe que pode encher muitas camionetas ...

- E onde o pescam?, pergunto eu.

Olha-me com estranheza e responde:

-Ah! Isso não sei. Por esses mares...

E continua a contar, numa linguagem característica, impossível de transcrever:

O peixe, nos grandes navios a vapor, chega a Lisboa. Descarregam-no no frigorífico e aí passa pelas mãos do primeiro intermediário. Grandes negociantes compram logo todo o carregamento e procedem depois à lota.




Varinas na Ribeira
(Autor: Amadeu Ferrari ; Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa)

O peixe vai para a lota em caixas e canastras. O graúdo pode ir em caixas de 40 pargos, 200 pescadas, etc. A sardinha, o carapau, vende-se em canastras de 10 centos, mais ou menos. A lota faz-se no recinto do frigorífico ou na Ribeira Nova.  Pinta-me a cena na Ribeira.

- As caixas e as canastras em fila, com aquêle lindo peixe a brilhar, e os compradores pelo meio, tudo a falar alto, é uma coisa mesmo bonita de ver... É como no cinema...

A lota começa por valorizar o artigo. Vai do preço maior ao menor. 800, 280, 220, 190, 150 ...

- Chue! brada o comprador, quando o preço chega ao ponto desejado.

Pertence-lhe o quinhão. Pode pagar de pronto ou a crédito, se tiver crédito. O peixe passa para as mãos do segundo intermédio. Êste agora reparte o seu lote por umas 20 peixeiras, destas que andam pelas ruas, de porta em porta. Geralmente partem da Ribeira com uma carga de 20 a 30 quilos na canastra, entre peixe miúdo e graúdo, no valor de 20 a 50 escudos, carregado à cabeça.




Varinas na Ribeira
(Autor: Amadeu Ferrari ; Fonte: Arquivo Fotográfico de Lisboa)



A senhora Rosa Pereira, peixeira de Lisboa no ano de graça de 1940, sai da Ribeira Nova em passo vivo, aí pelas 9 da manhã, e começa a sua venda pelas alturas do Socorro. Vai seguindo sempre, apregoando e vendendo, até ao Pote de Água, perto do Areeiro, onde termina o seu dia de trabalho pelas 3 e 4 horas da tarde. Então é que almoça. Às vezes sobejam-lhe umas dúzias de sardinhas, ou de carapaus, que entram na economia do lar.

- Mas faz-me mais arranjo vendê-las...

Interrogo-a com curiosidade:

- Porque não começa a vender antes do Socorro? Da Ribeira Nova até ali é um bom bocado... Como muita gente... Compradores... Poderia vender...

Ela entra então a dizer-me dos seus dares e tomares de peixeira a contas com a polícia.

- Porque a polícia proibe... A polícia não nos deixa vender nas vizinhanças dos mercados! As peixeiras, ali pela Baixa, só podem andar caladas, sem um prègão, Se alguém as chamar, sim senhor, podem subir a escada e vender. Mas nada de prègão, nada de parar na rua e vender uma marmota a quem passar.

Mortificada, conta-me a cena pior da sua vida de vendedeira.

- Um dia, não havia sombra de polícia pelo sítio, poisei a canastra no passeio e comecei a vender uma eirozes. Logo às primeiras palavras vi o polícia aparecer, um à paisana, e prendeu-me sem mais aquelas. O freguez, especado na minha frente, ficou varado, e até com medo de ser preso, também. Quando eu comecei a chorar teve pena de mim e acompanhou-me à esquadra. Queria pagar-me a multa. Como era a primeira vez, multaram-me só com 6$50. Mas eu que os não tinha comigo? 4 escudos no bolso, e mais nada. E não aceitaram o dinheiro da mão do meu freguez... Ai, nem me quero lembrar! O tempo passava, eu desfazia-me em bagadas, mas não era assim que arranjava o dinheiro. Tinha 40 escudos de peixe na canastra, com a demora podia estragar-se tudo, a venda do dia estava perdida, e ainda por cima as eirozes fugiam-me por todos os lados, as malditas, como cobras... Ai o que eu chorei, o que eu pedi! O meu filho, com 3 meses, em casa, eu a rebentar com leite, e ele, coitadinho, a chorar com fome, de certeza... Enfim lá apareceu quem me emprestou o que faltava para a multa, e saí livre, mas Deus me livre doutra como aquela...

Continua a contar-me as imposições da polícia.

- Se andarmos pelo passeio com a canastra à cabeça, são 75 escudos de multa. Se molharmos alguém com a água do peixe é o mesmo. Se nos apanharem descalsas, temos multa, e cadeia. Ah! Triste vida!

Olha para os pés, mostra-me uma chaga, e afirma:

- É do chinelo! O pior que pode acontecer aos pés é andar calçados! E então no inverno? Os chinelos molhados, todo o dia, é um horror, com os pés metidos nestes estojos...

Tem um geito de aborrecimento, eloquente e simples, e olha com atenção os meus sapatos. Mas não diz mais nada.

Pergunto-lhe o que pensa da polícia.

- Há de tudo. Bons e maus. Deve dizer-se que perdoam muita coisa...

A senhora Rosa Pereira não sabe ler nem escrever, mas é esperta, faz contas de cabeça, e num instante desfia a mais embrulhada história de dinheiros. Idéias políticas, não tem. A sua classe não está sindicada, e ela nunca pensou nos benefícios do Sindicato. Entende que o mundo está bem governado desde que as famílias possam viver com honra, religião, paz e abundância.

Inquiro das suas reclamações de classe:

- Nunca pensamos nisso. O que me parecia melhor era deixarem-nos vender como quiséssemos, mesmo paradas na rua, nada de impostos, e que andasse descalso quem quisesse andar.

Quando lhe perguntei sôbre as vantagens e desvantagens dos dois mesteres em que se ocupou, ela respondeu-me sem hesitações:

- A vida de operária é boa só por se ter uma féria certa. Quanto ao resto, é o pior que há... A peixeira tem mais liberdade, anda ao sol, anda à chuva, mas não atura patrão. Há assim uma idéia, na peixeira, de que é patrão de si mesma...

E lá se foi, muito direita, com a canastra equilibrada na cabeça, as suas chitas claras, o seu cheiro violento a maresia. Não tardei em ouvi-la apregoar na rua:

- Ó vivinha da costa!
- Ó pescada do alto!

- Ó pargo fresco!"

Maria Archer, in Revista Municipal nº 4, Ed. Câmara Municipal de Lisboa, s/d (1940?)

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