Ypsilon não é uma incógnita

Se chegarmos depois do anoitecer, espera-nos um percurso de uma outra geografia, uma paisagem que a nossa não-memória reconheceria como lunar, pontuada a escuridão por iluminados abstraccionismos rochosos. Levados somos para uma caverna - com que tesouros seremos recompensados pela jornada?




O nosso destino é o Oitavos Hotel e os seus restaurantes. Instalados um de cada lado do amplo corredor que atravessa todo o piso térreo, oferecem distintas opções aos seus visitantes: o menu do chef com variação diária, de acordo com as disponibilidades e oferta do mercado no Ypsilon Restaurant; um menu a la carte no Ypsilon Lounge.

O menu do chef (Cyril Devilliers) primeiro, num jantar luminoso, de boa disposição, motivada tanto pela companhia como  pela influência dos pratos degustados, uma discreta mas assertiva presença, da composição visual à boa impressão palatina.

Uma entrada que, na variação que ensaia do canónico porco e amêijoa, é quase um ovo de Colombo: cachaço de porco preto, marinado à portuguesa e picado, estufado com mexilhão na sua casca. Depois de se conhecer parece fácil - foi preciso pensá-la... Começou-se bem e foi dado o mote: tradição como inspiração, simplicidade no número de elementos principais e, como base de tudo, uma sólida técnica. Bela introdução.

Mexilhões fartos de porco preto, caviar das últimas beringelas da Quinta do Poial
Dois pratos principais, um de peixe, outro de carne.

[Pausa. De onde vem a primeira impressão que nos causa um prato - da composição visual, do aroma que liberta, do nome intuitivo ou da detalhada descrição, da encenação posta na colocação em mesa? Poderá o lento saborear que se segue alterar essa ideia? A desconstrução do título que iluminará as escolhas e esclarecerá interrogações? Façam-me um favor: olhem para as fotografias que se seguem e, sem ler o que sobre eles escrevi, sigam o vosso instinto de consumidores. Qual é a ideia que formam sobre cada um?]

Bouchon de tamboril, alho francês confit em miso, batata ratte e creme fraiche

Tamboril, mas também rascaço açoriano e percebes, batatas, alho francês, cebola roxa. Texturas lisas, texturas crocantes, sabores marinhos, sabores da terra. As batatas ratte que bem se prestam à cozedura, o miso que me pareceu acentuar o sabor do alho francês. Multiplicidade de estímulos sem se tornarem excessivos.

Vitela mirandesa, verdadeira “bearnaise”, batata recheada versão “tartiflette”
Vitela mirandesa, verdadeira “bearnaise”, batata recheada versão “tartiflette”
Vitela mirandesa, verdadeira “bearnaise”, batata recheada versão “tartiflette”
Será preciso acrescentar algo à descrição que as fotos não expliquem? Carne tenra como é apanágio da raça e da idade se bem tratada na preparação, o pedaço de gordura para contrariar um pouco da secura que é própria da peça. Um presunto (de Montalegre) divinal e as batatas tartiflette ironicamente reconstruídas numa versão que espelha bem o aproximar do nível do mar uma receita "de montanha". Finalmente a béarnaise, um acompanhamento classicamente gaulês para a carne mas não menos saboroso.

Finalmente as sobremesas. E que grand finale! Desenhados pelo chef pasteleiro Joaquim Sousa, estes sabores de Outono souberam encher uma alma já bem alimentada.

Sabores de Outono
Sabores de Outono
Não são belos? No shot, ginjas e creme de queijo, a acompanhar uma gelatina de maracujá (repararam no apontamento de flores e pétalas?). Sabores perfeitos, complementares.

Segunda sobremesa (que o meu êxtase fez esquecer de fotografar): uma composição de trufa quente de chocolate, sorbet de mandarina, panacota de amêndoa, gelado de chocolate...

Referência para o Porto Champalimaud Vintage 2001 servido como complemento: casamento perfeito.

Finalmente, para adoçar o imperioso café, isto:





E a conversa que se estendeu...

Num terraço completamente inundado por um extemporâneo Sol estival, tendo por enquadramento  dunas e greens contra os azuis de céu e mar, experimentaram-se alguns dos pratos do menu do Lounge.

Exactamente a mesma filosofia de simplicidade e bem fazer, a mesma agradabilíssima recepção no palato, a mesma satisfação visual.

O Lounge brilha nestes dias de enorme luz, do azul que tudo inunda através da malha de vidro que veste o edifício. Não há ruídos que sobrevivam e incomodem a experiência: somos só nós, o espaço e as delícias colocadas à nossa degustação. Acredito que, por serem próprios, os prazeres não se transmitem; mas partilham-se e momentos destes têm forçosamente de se partilhar - esta é uma experiência que só ganha se feita em conjunto.

Do conjunto das entradas, um Ceviche de atum e salmão, tomate cereja e pera abacate para celebrar a meteorologia desencontrada do calendário. Se feito com produtos frescos - esse o seu segredo, essa a virtude deste - é imbatível. Abençoados peruanos!



A reincidência nos mexilhões fartos de porco preto, desta vez estufados em molho de tomate, igualmente bons,



Ostras da Ria Formosa ao natural que me pareceram um pouco "magras" (que, confesso, não sei se é defeito se feitio) face a grandes experiências que já tive.



Um Mexido de bacalhau e azeitonas absolutamente divino e que poderia ser prato único, tal o prazer que me provocou:



Spring roll de camarão com molho Thaï-chili, massa com espessura adequada, bem fritos, recheio saboroso



Sushi correctos (ainda que não atinjam a excelência das criações do Paulo Morais, mas cada chef no seu ramo...)




Como prato principal, esta maravilha, Choquinhos "à la plancha", batata a murro e pimenta da terra. Simplicidade, perfeição na técnica, encanto visual.


Afamado, veio igualmente para a mesa o Cheeseburguer no Prato. Não o provei que a experiência já ia longa, mas não resisto a mostrá-lo em versão 1/2:



E pronto: foi a vez das sobremesas (suspiro). Ninguém consegue manter-se sério.

Quem resiste a este sorbet de mandarina? É o fruto acabado de colher e, por artes de computação gráfica, instantaneamente transformado em sorvete. Só pode ser, dada a intensidade e verdade do sabor. E com este canudo de chocolates, com esta apresentação... Solar, solar...



Para terminar, a coroa de glória: Morangos, hortelã e creme de arroz doce. O arroz em creme divinal encapsulado numa crocante caixa, a nadar num coulis de morango extraordinário. Grande combinação, contrastes de texturas em perpétuo desafio, a hortelã e o morango, o leite e o açúcar... transcendente.




Para os muitíssimos corajosos (e diet-free, diabetes-free, tudo e mais alguma coisa-free...) estas variações de chocolate, das trufas aos bombons para acompanhar o café.


E por aqui ficámos.

Que apreciação fica destes espaços?

Lugares de refeição que complementam seriamente o 5 estrelas que os alberga. São, antes de mais, restaurantes de hotel e sabem proporcionar aos hóspedes uma sólida experiência gastronómica que casa com felicidade a sobriedade "internacional" de inspiração francesa que caberá nas expectativas da maioria da sua clientela com a marca das tradições e modos da cozinha portuguesa. Procuram ser, no entanto, algo mais que um complemento do alojamento - um local onde se vai independentemente da estadia, um local de referência.

Do meu ponto de vista, a inteligência das propostas, a qualidade de confecção, o espaço, o serviço, têm qualidade mais do que suficiente para o conseguir.

Preços eventualmente acima das expectativas no caso do menu do chef (aceitáveis, considerando a sua inserção num hotel de topo), perfeitamente razoáveis no caso do Lounge.

Definitivamente a experimentar.

Classificação: Cozinha - 4,6/5 ; Global - 18,7/20
Preços: Restaurant $$$$(fixos - 60€/70€ com vinhos) ;
            Lounge $$$ (>30€, dependendo do escolhido; petiscos e snacks entre 3,5€ e 15€)


Rua de Oitavos, Quinta da Marinha, 2750 – 374 Cascais
Tel.: +351 214 860 020
GPS: 38º42’14.68” N; 9º27’59.73” W

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