Cozinha tupiniquim (II) - Feijoada

Tião querido,

Grão-fino brasileiro, quando não metido a besta, é um elemento indispensável para a sobrevivência da arquitectura deste país. À minha frente, o livro do Claudio Bernardes relembra-me essa verdade.  Páginas e páginas com fotos das suas maravilhosas criações, um hino à nobreza dos materiais naturais brasileiros e à possibilidade da arquitetura poder existir com a natureza e não sobre a natureza. E isso só pode ser realidade porque houve quem se dispusesse a pagar e a aceitar a concretização dessa visão.

Conheci o Claudio há muitos anos, quando iniciava a minha vida de jornalista, tentando utilizar o que tinha aprendido na PUC. Era jovem e já era brilhante. Fogo, fogo tão cheio de certeza que queimava (há fogo que não queima? Há. O que deixa as pessoas ao largo).



Talvez uma das minhas melhores memórias de fim de semana seja a da festa de inauguração de uma das suas primeiras casas, uma mansão toda em madeira em Angra. Que esplêndido local, que inteligente anfitrião!



Almodovar roubou-me esse pedaço de paraíso na cena do Fale com Ela em que Caetano canta para uma roda de silenciados admiradores. Sem Cae mas com o sentimento que só brasileiro tem, foi assim o final da tarde, alguém tocando num violão as sempre eternas melodias e essa paz que chega com as cores do ocaso. Mãos de artista tinham composto a feijoada do almoço, uma feijoada plena, com tudo a que tínhamos direito, algo que só a sensibilidade mineira da anfitriã poderia acrescentar à exuberante, sensual qualidade do prato carioca.

É carioca a feijoada? É brasileira.

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