A study in red

Demorámos alguns anos até nos entendermos, eu e a lampreia. Não que nunca tivesse ouvido falar dela. Tinha - e muito. E bem. Mas é daquelas coisas, era preciso o momento certo, o acumular de anos e de experiências que levam à predisposição para se ser seduzido, deixar ser-se encantado.

Desenganem-se os ímpios que do seu fálico aspecto escarnecem e fogem: nada é como parece e perder um encontro destes por voluntária omissão é vibrar um pouco menos, exultar um pouco menos, viver um pouco menos.

Ao contrário da pescada - que antes de o ser já o era... -, a lampreia só é verdadeiramente grande quando pronta para degustar.  De patinho tenebroso com uma aparência que preenche todos os requisitos para protagonista de qualquer escrito de Wyndham, plano sequência de Corman ou tela de Bacon a centro dum universo de sabor, abelha-rainha de uma colmeia de gostos: este o seu destino, esta a sua glória.



Antes, há que a aprontar, despindo-a, libertando a sua carne, eliminando vísceras e cuidadosamente recolhendo e preservando com vinagre o vital sangue que a embebe.

Convidado pelo mestre João dessa escondida jóia da cozinha lisboeta - popular, honesta e económica - que é a Nova Arcádia, eis o registo desse primeiro acto (parte II que cheguei já as bichinhas tinham exalado o último... gargarejo?).

Well, it's a bloody business but somebody has to do it...







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