The unending troubles of Alessandra the Great

Gattopardo. Aniversário. Telefonar. Assim, pretas no branco das tarefas a cumprir do telemóvel, as palavras eram mais autoritárias, adquiriam um tom inescapável. Alex preparava-se para as cumprir quando o aparelho se lhe besourou nas mãos, iluminando-se. De saída para os Bijagós. Sem electricidade. Incontactável nos próximos dias. Tem juízo. Sorriu de pânico, mas o que é que este gajo foi fazer para a Guiné? Hoje! Quem me vai tratar da iluminação da festa, hoje, logo? Quem me mandou ir na conversa do outro?



O outro telefonava-lhe precisamente nesse instante, atendeu. Então, quantas são as bocas para alimentar, atirou-lhe sem tempo para a deixar formular objecções. Vá, que tenho de ir às compras antes de ir à obra.






Perry entrou, ainda tímida do convite sem antecedência, a cozinha sem a actividade febril de que se lembrava mas com o cozinheiro do costume em acesa discussão com uma outra convidada. Tu não és nada leão! dizia-lhe, não sou leão? Quem é a estrela nesta cozinha? Olá minha linda, ainda bem que chegou! Venha cá e descasque-me estes chuchus, sim...?



Alex deixava-se requisitar para os beijos de parabéns, os livros de parabéns, as fotografias de parabéns que o fotógrafo contratado insistia em registar, ligeiramente inquieta por não estar a preparar o jantar, ligeiramente apreensiva com o resultado final, ligeiramente desregulada por naõ se sentir totalmente no controlo dos acontecimentos. O que é o jantar hoje? Homenagem à terra da aniversariante, ao pé do rio de Fevereiro, Brasil.






As divas, na sala, aproveitando a tranquila anarquia, oficiavam, enchendo-se deliciadas, de queijo e compotas. Majestosas e condescendentes, como só as divas. O piano calado, a voz em repouso. Alex, finalmente atraída gravitacionalmente pelo peso da actividade culinária, de mãos no aparelho para o arroz esquecido. Arroz, arroz, o teu reino pelo arroz! Tudo isto gira à volta do arroz! Que falta! Já acabaste o fizz? Bebe mais um bocadinho. O arroz descansado, a fazer-se sozinho, que fumo é este? O entrecosto! Alex, teu departamento... Moi? Eu sou só o cozinheiro, percebo lá eu desse teu forno caprichoso. Ai Hades... Hades? Não será antes Hefesto? Hum? Vulcano...? O fogão? Vulcanos não são os esquentadores?




Diálogos irreais, intimidades excessivas com o gin sifonado e a malagueta na moqueca.



Para o lago então, com um peso amarrado aos pés! Lago? Já chegámos à Helvetia e eu não dei por nada? Então hoje não era o Brasil o nosso porto de chegada? Chegada, partida, são mesmo só dois lados da mesma viagem, não é irmão Milton, o trem da feijoada é também o trem da despedida...



Brasil? O que é que a Ribeiro tem?




Pois tem destas amizades como ninguém...


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