A nossa tasconómica de Alcântara

Há mistérios em Lisboa que, para mim, só se explicam pela falta de cultura cosmopolita de promotores e pela reduzida dinâmica inovadora que afecta em conjunto proprietários, autarquia e potenciais clientes. Porque é que o potencial da arquitectura industrial abandonada de Alcântara está tão pouco aproveitado? Porque é que foi preciso um processo encalhado nos meandros da burocracia camarária e a necessidade de rentabilização temporária do espaço para desencadear o caso de sucesso que é o Lx Factory?

Passear pelas backstreets de Alcântara é descobrir crisálidas raras, expectantes por um pedaço de imaginação, outro tanto de teimosia e um coração de empreendedorismo para atingirem a sua plenitude de mariposas, abertas à cidade e à fruição dos seus habitantes.

É assim na rua das Fontainhas, longa artéria de reduzida circulação. As traseiras do Alcantara Residence, espaços expectantes pelo regresso do boom imobiliário. Quando, há uns meses, propus o conceito Tasconómico não sabia (Gastrossexual serei, omnisciente ainda não) que o conceito já gestacionava por terras alfacinhas, mais precisamente nesta rua.



O restaurante chama-se Aquele Lugar em Alcântara e nasceu das cinzas de uma tasca que por aqui muitos anos oficiou. Três mosqueteiros (que, como no romance, são 3+1), oriundos profissionalmente de áreas muito diversas e nada coincidentes com o ramo, o Bruno, o João, o Rafael e a Mariana à procura de um autor. Sendo cada um dos clientes o autor ... da justificação para a sua actividade. E que aqui encontra um local à sua medida. Menu adaptável, espaço que envolve e interage (de onde veio isto tudo, o que é que cada uma destas peças me diz?). Uma atitude descontraída que casa com uma grande vontade de fazer agradável. Em síntese, a aplicação literal da junção de um orçamento de tasca com uma certa visão gastronómica ou seja, uma vontade de tratar bem os ingredientes com uma ideia subjacente. Não se esperem, no entanto, ingredientes gourmet nem escolhas de topo: como disse, orçamento de tasca (e preços de tasca: 10 euros por um menu de sopa + 5 pratos). Em contrapartida, inventiva, sedução, experimentação, são garantidos.

Do menu servido (muda frequentemente, de acordo com a vontade e as disponibilidades do mercado), constaram:

A sopa de batata doce, gengibre, leite de coco e lima, especiosa, espevitada pela lima e pelo gengibre, um poderoso cartão de visita, muito perto da versão definitiva (diria que lhe faltará - talvez - a passagem pelo chinês para retirada dos filamentos do gengibre);



Os no name vegetais, uma variação do rösti francês ou em variante nacional, umas pataniscas vegetarianas, simpáticas;


Uma ortodoxa combinação de morcela e laranja tornada incomum pela adição de umas pingas de tabasco, a valorizar o conjunto, infelizmente diminuído pela fraca prestação da laranja;


Beringelas com mozarella e pesto, uma combinação infelizmente falhada apesar da bondade do polme e da fritura das beringelas, com a temperatura e a textura destas a fazer desaparecer o tímido queijo e o pesto que, a solo, o sublinha muito bem, sem saber que diálogo travar com as beringelas;


Gyozas que se mostraram aceitáveis;


Amêijoas à Bilhao, muito próximas da preparação quase homónima mas com um toque de frescura que me pareceu dado pela erva-príncipe, o que não confirmei.



Oferecidos foram ainda uns ovos mexidos com farinheira que declinei por ter ultrapassado os limites diários de fritos mas que à vista pareceram muito bem.


Para fechar e como sobremesa, um crumble de banana e maçã com sorvete de tangerina que cumpriu com galhardia o seu papel de apaziguador dos excessos anteriores.



O que se deve apontar de menos bom a este neófito espaço? Alguma falta de diversidade no tipo de preparação, com exagerada predominância dos fritos e das gorduras. O carácter "experimentalista" de algumas das propostas o qual, se aceitável em pequena dose, pode ser factor de desmobilização clientelar.



Tomando isto em conta parece-me, no entanto, que a equipa se faz, tendo estes júniores todas as condições para singrar no mundo sénior desde que saibam aprender depressa - a juventude é uma etapa, não um fim em si mesmo. Definitivamente a usar, desde que percebido o espírito descontraído e admitida alguma latitude na prática.



A incentivar e a criticar construtivamente. É serviço público.

Aquele Lugar em Alcântara
Rua das Fontainhas, 38, Lisboa


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