Santa cefalópode


Chamam-lhe a capital do polvo em Portugal e fazem por merecê-lo.



Santa Luzia, no concelho de Tavira, poiso seguro para as aves de arribação da urbanização vizinha tem à disposição do visitante vários locais de referência para o demonstrar.



Tive, o mês passado, a oportunidade de experimentar dois desses santuários e não posso dizer que discordo da pretensão.

[Pausa]

Descanse-se a viatura junto à ria - de preferência à hora do Sol indeciso entre o laranja e o vermelho - e peregrine-se lentamente, passeio necessário de preparação mental, de lenta absorção do remanso vespertino: o cérebro comanda a vida levado pelos sentidos e nada melhor que umas sinapses descontraídas a passar informação entre neurónios de bem com o mundo. Saibam que qualquer refeição é o Nirvana depois de um passeio assim.





[Fim da Pausa]

Siga-se então a setinha urbana que decifra o caminho para um primeiro encontro.


Sala funda, antiga taberna, passado acentuado pela rusticidade pretensa de cadeiras e atoalhados. Pão algarvio que não atinge a excelência do vizinho mais a Norte mas não trava a gula.


Maionese de raia, numa textura que surpreende os neófitos pelo inusitado - para um peixe: fiapos (a raia desfeita) envoltos em maionese e batata, um prato descomplicado e estival.


Polvo suado, especialidade da casa, infelizmente para lá de Marraquexe em termos de sal. Seria do dia, da cozinheira, do espirro simultâneo com o gesto de temperar? Diz quem é habitual que terá sido certamente defeito e não feitio. Infelizmente não repeti para confirmar. Nos intervalos dos goles de água para amenizar a maresia, deu para perceber um polvo bem amaciado na cozedura, untuoso pelo espesso molho. Cartaz do restaurante, a obrigar a mais atenção.


Quanto ao serviço, de igual só tenho memória numa Vila Real de Santo António de há quarenta anos, adormecida num Portugal turístico-amador: simpático, mas como os Fórmula 1 em pré-coma de desistência com a caixa de velocidades encravada em primeira. Oh descanso de quem sente não precisar de se apressar para manter a clientela!


A Casa partilha os pergaminhos com a sua vizinha e ex-irmã mais velha. Em frente à ria, com uma esplanada que apetece viver até à exaustão dos petiscos, introduziu-me a mais uma soberba variação do atum, uma Estupeta acompanhada à guitarra e à viola por tomate e pimento, numa combinação que só não me fez chorar por mais porque me apressei a repetir. Benditos séculos de tradição que tão bem souberam aprimorar este manjar de terrenos deuses!


Muito bons também os Rissois de polvo, de massa sapiente em sapiente fritura, sem traço de excessivo óleo, a enroupar um muito bom recheio. A convidar a uma tarde inteira de guloso mordiscar.


Por fim, tiras de tradicional Choco frito: novamente bem fritas e bem secas, com a carne tenra, sabiamente afastada do emborrachado que resulta de uma preparação descuidada. Muito bem, muito bom, muito fiquemos mesmo por aqui a apreciar o final do dia.


Está-se bem servido nesta santa luzidia de tanto calor.


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O Alcatruz
Rua João António Chagas Pereira, 46, Santa Luzia, Tavira
Tel.: 281 381 092

A Casa
Av. Eng. Duarte Pacheco, 10, Santa Luzia, Portugal
Tel.:965 084 207

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