As lojas do Mestre André (II) - Por esta rua acima...

Pela rua dos Cavaleiros há ainda um cheirinho da Lisboa criada pelos relegados do poder, moçárabes e muçulmanos, migrantes lusos e imigrantes alheios.

Pela rua dos Cavaleiros chega-se ao Sol de Alfama e do Castelo - tão lá no alto mas tão igualmente castiços.

A rua dos Cavaleiros é o rio por onde corre a Mouraria, à volta da qual corre a Mouraria, por detrás da qual se esconde a Mouraria.


Há a rua do Capelão da qual se quer fazer bandeira do fado e por onde se chega à pretensa casa de uma mitificada Severa ainda que, incongruentemente, se tenha, mesmo à sua ilharga, assassinado com uma recuperação uma das Ginginhas de Lisboa.


Mas a rua dos Cavaleiros!...


Prédios em solidariedade secular, apoiados no vizinho e na graça de todos os santos da cidade, fachadas decrépitas pela ausência de cuidados mas mais vivas que as mais vividas fachadas da cidade nova, encerrada das nove às cinco.

Montras que mexem, traços antigos, ocupantes novos.

Delícias antigas, delícias recentes que num beco se juntam, o sagrado e o profano: a fava rica do pregão tradicional e os novos pasteis, inventados para a glória de um bairro e a alegria dos novos turistas.




Ah, a fava rica. Confesso que, pelas receitas que li, sempre a julguei um guisado de favas. Aqui (e, aparentemente, no passado) não é. É uma queirosiana malga - profunda malga! - de sopa, rescendente, capaz de recuperar para o eficaz mundo do trabalho o mais desalentado guardador de sonhos da cidade.

Quanto aos pasteis, passem por lá e tragam uma caixinha. Amortecem-vos os gasparianos efeitos da contemporaneidade e são tão mais lisboetas que aquelas coisas cada vez mais cócós daqueles lados de Belém.


Ver Beco dos Cavaleiros num mapa maior

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