Do Gastrodré à Baixa, comé

Um percurso possível. Um contador de histórias valioso - André Magalhães. Vontade de olhar e de provar, de evocar e recriar.

Começamos como começavam quase todos os madrugadores passantes pelo Cais do Sodré: com uma bucha no quiosque e um café incrementado… com um cheirinho, como se dizia em bom lisboeta da silva dos meus tempos de Bernardim.


Cais do Sodré também de marinheiros, em demanda ávida de alimento para diversas fomes, nos tempos áureos do comércio marítimo ou da fria guerra de nervos com que terminou o aceso tráfego militar do Atlântico Norte. Em acentuada decadência o vário mercadejar da zona, atentando-nos nós no que se pode citar a todas as horas do dia sem perigo de sobrolhal censura ou de taipais cerrados pela imprópria hora da manhã.


Humildes tascas em purgatória descida, mantidas por donos de outras eras, em fim de vida ambos, sem perspectivas de continuidade.


A Casa Cid, em frente às traseiras da Ribeira, representante honesta da cozinha de mão-cheia, com oficiante destro e conhecedor e onde vale a pena abancar, sem tempo, para atentamente distraído, encher os ouvidos de histórias, de linguarejar alfacinha e da boa petiscada que ainda resiste.



Comida de rua em balcão de zinco, jaquinzinhos, torresmos, croquetes, brancos em copos de três e um sorriso satisfeito, apaziguado, beatífico.





O British Bar, que foi queirosiana Taverna Ingleza,



onde o tempo anda para trás,



escritório oficioso do José Cardoso Pires e de inúmeras dúzias de bons malandros, sede de muita sede, afogada em Ginger Beer e Altedouros, as estrelas caseiras da britânica casa.


A pastelaria Caneças.





A mercearia Cabaça de Mel, com biscoitos que foram gesta marítima e são delícia para a comunidade cabo-verdiana,



situada na travessa do Cotovelo, onde em tempos se comiam as melhores iscas com elas de Lisboa, sujeito de venerável texto de Albino Forjaz de Sampaio, gastrónomo de uma passada Lisboa que, canoa de vela erguida, nunca, nunca, nunca mais.



As lojas de secos e molhados da rua dos Bacalhoeiros, com feijões de todas as latitudes, tripa genuína para enchidos caseiros, bacalhau de cura amarela a salga de riso amarelado e peixe seco para comunidade africana consumir.



A Baixa, já ali a seguir, com os seus restaurantes galegos, ex-casas de pasto e abardinados restaurantes caça-níqueis de turistas, encantados com o decrépito very typical, história para outras histórias...

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