Crítica gastronómica na revolução





Grassava a "revolução" neste Portugal de brandos costumes abananados por quase um ano de manifestações, contra-manifestações, ocupações, saneamentos, nacionalizações, comunicados do MFA, intentonas, inventonas, maiorias silenciosas e minorias ruidosas, governos provisórios, provisórios generais, soldadosunidosvencerão, alianças com o povo, alianças sem o povo, fora com as alianças, discursos, propaganda, discursos, comunicados, contra-comunicados, palavras de ordem pichadas a vermelho, palavras de ordem gritadas a vermelho

(lembro-me de um momento igual e igualmente contemporâneo numa aula de música que foi descambando da desafinação para a polifonia de melodias diferentes, do bater sincopado de palmas para marcar o ritmo até à desenfreada pateada e ao bater dos tampos das carteiras, a professora a perder a tramontana porque já tinha perdido o controle de uma cambada de miúdos de 12 anos, e por uma fracção de tempo senti-me fora do meu corpo, fora daquela acção, como um espectador a pairar sobre a turba imberbe, sobre a professora já para lá de Marraquexe, sobre aquele comboio à desfilada sem hipótese de parar, e a desapegadamente pensar isto vai dar merda. E deu.)

ódios gritados a vermelho e a preto e branco, intolerâncias várias, múltiplas, profundas, diálogos de surdos e muitas vezes de cegos, cumplicidades, conspirações, delegações, prisões, libertações, o país parado a andar, a falar, a sonhar, a utopisar - quando nasceu, como contraponto da esquerda socialista ao dominador Expresso (que ainda não era espesso) no combate à esquerda extrema e arredores, um jornal da ala PS para evitar aos seus simpatizantes o incómodo das graçolas dos comunistas vizinhos por levarem para o café de sábado um jornal reaccionário. E assim apareceu O Jornal.

(declaração de interesses: bebedor confesso de toda a tinta publicada pelo jornal da duque de palmela durante a década de 80 até ao aparecimento dessa lufada de loucura séria que foi o Independente - confesso - que sempre achei O jornal de um cinzentismo atroz, chaaaaaaato como a potassa, sempre muito politicamente correcto, uma espécie de desencarnação do actual sec-geral)

Recentemente, em demanda da pré-história da crítica gastronómica lisboeta, redescobri os primeiros anos do jornal - que foi publicado entre 1975 e 1992 - e não pude deixar de admirar a coragem do director que, em tempos de tanta seriedade de ideais, permitiu uma coluna de um tema que poderia rapidamente ser objecto de protestos vários, pelo seu carácter frívolo, burguês mesmo, quase a tocar o contra-revolucionário: a gastronomia.



É certo que o seu autor - que assinava Manuel Pedroso mas que tinha por nome próprio Luís de Sttau Monteiro - tinha um pedigree à prova de protestos revolucionários: autor proibido pela censura e celebrado pela ácida Guidinha que, no Diário de Lisboa primeiro, escaqueirara sem vírgulas muita da pasmaceira marcelista dos últimos anos do regime anterior.

"(...) cá na Graça há uma que arma a dizer que tem todo o bacalhau que quer porque conhece um senhor que conhece um outro que é primo dum outro enfim uma bicha de conhecimentos que nunca mais acaba para comprar um rabito de bacalhau! cá na Graça as pessoas armam a dizer que têm o que falta às outras é uma maneira bestialmente estúpida de armar mas as pessoas são assim mesmo e não há nada a fazer senão aguentar adeus vou para a bicha do sabão que anda para aí gente a dizer que vai subir." (tirado daqui)


Ler as crónicas gastronómicas de Manuel Pedroso é descer a um Portugal gastronómico que foi só há bocadinho mas que nos parece tão longe. Das faltas de alguns géneros alimentares, à menoridade da maioria dos restaurantes. Da rarefacção dos restaurantes de referência, das referências a cozinheiros.



Sobre o bife, escreveu, " Quem estiver num restaurante não pode deixar de reparar que mais de metade dos presentes está de faca na mão a batalhar com esse pedaço de carne dura e sensaborona a que se dá o nome de "bife". O facto é tanto mais de estranhar quanto é certo que o "bife" que se come entre nós é francamente mau. Não temos pastos e não apurámos raças, de forma que a nossa carne é de péssima qualidade. (...) Em casa o cidadão médio raras vezes come um pedaço de carne porque o seu preço o torna praticamente inacessível.  Quantas vezes e que a família pode comer bifes? Quem tem dinheiro para encher a barriga dos meninos de carne assada? (...) Encantado da vida, o cliente encomenda o "bife da casa e, passada a meia da praxe, é-lhe servido um pedaço de carne dura como granito acompanhada de batatas fritas e - para justificar o facto de ser "da casa" - de um ovo estrelado e de pedaços de uns legumes ácidos e avinagrados que, entre nós, passam por "pickles". No fundo, o "bife da casa" é isto e mais nada, excepto em alguns restaurantes mais caros cujos proprietários juntam à mistura descrita uma fatia de mau presunto."

O glorioso Tavares, numa Lisboa em polvorosa despe os galões e serve comida económica: "Sabendo que o Tavares, até pela sua reputação, tinha fama de caro e que essa fama o iria prejudicar, o Fernando resolveu enfrentar o problema e criar à sua casa novas condições de vida. Sabendo que o Tavares era tido por bastião do snobismo português e frequentado por VIPS da vida política e económica portuguesa, o Fernando resolveu "inventar" um Tavares novo ou, melhor, reinventar a imagem da sua casa centenária adaptando-a aos novos tempos. (...) Um almoço ou um jantar completo neste restaurante em que o serviço continua impecável, custa entre 70 e 100$00, o que julgamos verdadeiramente notável numa época em que qualquer restaurante médio pede mais do que isso e não chega aos calcanhares do Tavares."

Para terminar, que o texto vai longo e a paciência para o ler curta, fica a ironia feroz da crónica sobre a primeira hamburguer house da cidade, em versão completa (clicar na imagem).

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