Um cozido de antologia




O boca-a-boca já os tornou uma lenda, nesta Lisboa gastronómica que ferve em lume aparatoso mas de pouco gás. Acontecem duas a três vezes por ano, no Confraria, restaurante da York House. São os cozidos do seu chef executivo, Nuno Diniz, homem de vários instrumentos, professor nas Escolas de Turismo de Lisboa e do Estoril, chef consultor do Rota das Sedas, conselheiro técnico no televisivo Top Chef.



A magia tem destas exigências. Tem de ser rara para melhor poder surpreender. Tem de tocar a perfeição para não desiludir.

Nuno Diniz cultiva, nos seus cozidos, este preceito: rarefá-los e toca-os com o exigente dedo de mestre de modo a torná-los numa experiência inesquecível.

Cozidos "à portuguesa", há-os por Lisboa fora, uns feitos com os pés, outros sem cabeça, muitos sem amor. Poucos os que deixam saudade, menos os que conseguem concordância, raríssimos os que atingem o pleno nas favoráveis opiniões.

Porque precisam de tempo, tempo para sentir cada ingrediente e a cada um oferecer a exacta medida para a sua correcta cocção, porque precisam de despreocupação financeira para garantir os melhores produtos, porque precisam de honestidade para não os mixordar em banhos de reaquecimento.

O cozido da semana passada ultrapassou-me as expectativas.

Pela confecção, a funcionar como uma orquestra: cada elemento com a sua afinação (cozedura), a tocar em uníssono, em harmonia, sem desafinações, em tom maior.



Pela composição, uma convocatória recordista de 19 enchidos vencedores de meio Portugal, de para lá do Douro às portas do Tejo, cada um só por si a valer a viagem:
  • De Boticas, o Chouriço de Cebola 
  • De Montalegre, o Chouriço de Abóbora 
  • De Miranda do Douro, o Chouriço de Sangue, o Butelo, a Tabafeia, o Chouriço de Carne
  • De Vilar de Perdizes, a Farinheira
  • De Vinhais, Azedos
  • De Trancoso, o Bucho, a Morcela, a Chouriça, o Chouriço de Bofes, a Moura de Sangue
  • De Seia, a Farinheira
  • Do Fundão, o Bucho
  • De Vila do Rei, o Chouriço de Sangue
  • De Porto de Mós, as Moiras
  • De Fátima, Farinheira, a Morcela de Arroz
  • De Mação, a Morcela de Arroz.


Batatas de Montalegre de um mundo que não é o diário, um arroz delicioso, para além dos culpados vegetais e animais habituais.

Entrada. Um folar que nunca se me apresentou tão prenhe de (um notável) azeite.
O doce final, tradicional gula, um gosto que permaneceu, a sublinhar a memória do dia
Memorável que só não foi perfeito pela inacreditável atitude do maitre d' o qual, quando solicitado a sugerir um vinho que bem casasse com o prato, atirou com "Todos. Se estão na lista é porque são bons."  Se foi para ter graça, falhou. Se foi para destratar, poderia ter evitado. Se foi por feitio, pareceu fora de sítio - um galego dos velhos tempos da Baixa não teria respondido melhor.

Preço do cozido - 30€ . Total para 2 pessoas (incluindo bebidas) - 83,00€.
Considerando a riqueza dos ingredientes e a bateria arregimentada para o realizar, valor mais que justo (é quase injusto!).

Comentários

Nuno Diniz disse…
Obrigado pela simpatia, mas acima de tudo pela emoção, que é paralela à minha, neste percurso imenso pelo Portugal que adoramos, não só mas também por ser tão rico e diverso.

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