Px em Lisboa 2014 ao vivo (III) - Os Belenenses


Numa sociedade da opulência - como o é, aos olhos do limiar da pobreza da maioria da população mundial, o mundo industrializado - tem cada vez mais força a procura da novidade, de algo que desperte os sentidos da modorra de quem já tem muito, do tédio de quem já não enfrenta cada dia como uma batalha pela sobrevivência, da apatia da repetição.

Sinal disso na gastronomia, é a popularidade de cozinhas nacionais que caem fora dos parâmetros habituais de técnicas ou de matérias primas. Movimento centrífugo que começou com mais visibilidade nos anos 60, com a "descoberta" do Japão pelos iniciadores da que viria a ser crismada como "nouvelle cuisine" e que, na sociedade de informação globalizada de hoje, de mutações e modas mais rápidas, se tornou mais visível  e que tem expressão na "descoberta" e popularidade das cozinhas "exóticas" como a nórdica, a peruana ou a brasileira.

Tamuatá, peixe amazónico

Por enquanto.

É claro que há rios que correm paralelos a esta curiosidade e que dela se aproveitam, como, por exemplo, os da promoção de negócios multinacionais ou de novos mercados turístico-gastronómicos.

Criativos e geniais à sua maneira, chefes houve - há - que, estando no local certo à hora certa, souberam cavalgar a onda e, simbioticamente, aproveitaram-se e disponibilizaram-se para a cozinha do seu país, ao ponto de já não se saber quem lançou quem. O que também só interessará aos historiadores do próximo século.

Certo, certo, é que Redzepi e a Escandinávia, Acurio e o Perú, Atala e o Brasil são hoje estrelas fundamentais na constelação restaurativa mundial, pares na fama - e no proveito.

Que seja.

Uma boa consequência deste caminhar para os consumidores desta curiosidade é que a dinâmica da procura leva-a a não parar nas figuras tutelares, promovendo uma busca cada vez mais intensa por outros cozinheiros, outros modos de ver essa mesma realidade, outras respostas, numa espécie de desdobramento sobre desdobramento da realidade, de revelação sobre revelação, num processo que, quanto mais rápido for, mais fundo for, mais depressa esgotará o interesse do observador/consumidor mas que, enquanto durar, gerará os inevitáveis mediáticos - e proveitosos para ambas as partes - 15 minutos de fama global.

Sendo, na generalidade das vezes e por razões óbvias, um observador impedido de analisar in loco uma determinada realidade gastronómica, procuro aproveitar as oportunidades disponíveis - e nesse particular, o Peixe em Lisboa tem sido um belíssimo veículo divulgador de alguns dos mais interessantes "pensadores" cozinheiros da América do Sul.



Thiago Castanho é um jovem cozinheiro, oriundo da Amazónia, região de uma biodiversidade tal, de uma tão vasta  riqueza de possibilidades gastronómicas que, mesmo para os autóctones, continua  a ser um baú, sem fundo, a explorar. Com um passado (ainda que breve) ligado a Portugal - estagiou, durante seis meses, com Vítor Sobral nos tempos do Terreiro do Paço - prolonga as ideias deste e de Paulo Martins no que diz respeito à utilização de receitas e matérias-primas tradicionais com uma visão contemporânea.



Irreverência no uso de ingredientes, ousadia na reformulação de preparações clássicas, talento na combinação e criação de pratos, tudo isto demonstrou este belenense de 26 anos, ajudado pela completa novidade - mesmo para lisboetas bem "colonizados" pelos saberes e sabores tradicionais brasileiros - dos sabores, das forma, dos cheiros, dos produtos trazidos, do jambú ao filhote, da macaxeira ao aviú.

Flores de jambu - mastigadas, provocam um quase total entorpecimento da língua, a par de uma sensação de titilação em toda a boca.

Mais do que a abertura ao público português de passar a ter disponíveis a maior parte dos sabores amazónicos que, mesmo no resto do Brasil, são difíceis de encontrar, fica desta apresentação a descoberta, ao vivo, de alguns sabores e a percepção de que, num alto nível restaurativo, também é possível a utilização de alimentos "populares".


Eis um Filhote - nome dado a uma Piraíba com menos de 60 quilos -
o peixe mais trabalhado na culinária da Amazónia

Mapará
Tambaqui
E como os olhos também comem, aqui fica o registo dos pratos apresentados:

Mapará com Tapioca, homenagem à colónia japonesa no Pará, uma das mais numerosas no Brasil

Macaxeira com aviú (camarão a lembrar o camarão de Espinho, com cerca de 3cm de comprimento)

Ostras com Tucupi

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