E uma infinita tristeza...


Para as gerações que foram obrigadas a passar o seu adolescente spleen pelas românticas divagações do romântico bardo que um dia revestiu a trágico-decadente história de Carlos e Joaninha de reflexões graves e anotações irónicas,  não lhes é estranho o conceito de viagem - desde a iniciática, executada à volta do quarto, à nacionalista, realizada em terra própria. Viajar é descobrir, descobrir-se, usar o desconhecido como espelho para um melhor conhecimento de si e, inversamente, utilizar a experiência própria, as memórias, os sentidos, o sentido, para melhor perceber o outro, os espaços, as suas realizações, apropriações, transformações.

Pausa.

Caso particular da viagem é a flannerie, um tempo de vida andante, um momento de reflexão que nos oferecemos, sem objectivos nem metas, destino ou resolução, ocasião erradamente compreendida como de nada fazer. Totalmente errada. Se a viagem é o enamoramento e a paixão, a flannerie é o amor pleno, a delicada, atenta e constante dedicação ao pormenor, à descoberta de cada pormenor, cada variação, cada pequeno detalhe do objecto amado.

Percorro assim a minha cidade, a ciumenta e violentamente minha Lisboa, que amo e defendo apaixonadamente, à qual critico e objecto cada defeito de carácter, desleixo ou imprecisão.

A Baixa é, provavelmente, a jóia da coroa na promoção desta cidade. É um marco na história do urbanismo mundial e, por extensão, na história da arte e na história das cidades europeias; é um marco na resiliência dos lisboetas, que não trocaram a cidade, no pós-terramoto, por localizações mais apetecíveis (como Belém ou Cascais); é um marco na nossa memória gastronómica, na memória gastronómica da cidade.

A rua Augusta é o eixo central deste sistema urbano, ligando, tanto física como simbolicamente, as duas praças principais da zona, numa (que à época da construção deveria ser clara aos habitantes) transferência de poder entre o Rossio antigo e medieval e o glorificado Comércio, extinto o Paço, uma ligação entre o povo e a burguesia. "Augusta" em aparente homenagem ao patrono do Marquês, o ainda absoluto rei D. José, petrificado, em majestática pose de bronze, no centro da Praça do Comércio, num belissímo trabalho do real escultor Machado de Castro.

Desenho de fachada de quarteirão-tipo da rua Augusta
(Fonte: Arquivo Histórico de Lisboa)
Augusta, a principal, iniciaticamente iniciada no arco triunfal. Augusta nos preços que atingiram os valores de aluguer dos pisos térreos até à morte matada do seu congelamento, primeira fase do estertor comercial que dura há décadas. Augusta, simbolicamente entregue ao povo, com o encerramento ao tráfego automóvel.

Muito pouco Augusta, no presente, coberta de esplanadas de terceira categoria, onde se serve comida travestida de típica, onde até uma mediana Pastelaria Ferrari envergonha o majestoso passado, emprestando o nobre apelido a comida de fotografia, para turistas distraídos.



Perante este jogo de espelhos, entre o haver do passado e o deve do presente, surgem as fachadas arte nova do edifício do Hotel Internacional, criadas cerca de 1910, em substituição do pombalino existente, ainda não elevado à categoria de inatacável. O hotel parece ter sido criado em 1914, servindo a cidade desde então, contra ventos políticos e marés do Tejo, tendo sido recentemente renovado.

A rua Augusta com o edíficio de gaveto original (no final do renque de árvores, à esquerda)
Princípio do século
(Fonte: Arquivo Fotográfico de Lisboa)

Comemorações da revolução republicana, em 1911, com o novo edifício de esquina, ainda não ocupado pelo hotel.
(Autor: António Novais ; Fonte: Arquivo Fotográfico de Lisboa)

Anúncio de 1914
(Fonte: http://pt.slideshare.net/UmbertoPacheco/lisboa-antigos-hotis)

Rossio, anos 60. O hotel Internacional, a Loja das Meias, os anúncios luminosos, o estacionamento na Praça.
(Fonte: Arquivo Fotográfico de Lisboa)



No primeiro andar, um novo restaurante, recentemente visitado, objecto desta crónica, Bastardo de seu nome.



Começa por ser um desperdício do local. Um hotel com mais de cem anos de história, situado na zona mais nobre da cidade, com um décor exterior que remete para uma era dourada na transição do século XIX para o XX ignora a oportunidade, rara, de apresentar um restaurante de referência visual e gastronómica, trocando-a por uma vulgar, despiciente decoração de avulsos, que pretende ser moderna mas não passa de modernaça.




Uma cadeira de cada nação, individuais de papel com frases trendy, num estilo "barba-de-três-dias-cuidadosamente-aparada" que ficaria bem noutros lugares mais contemporâneos, mas que, aqui, com, repito, o peso da história que tem acoplado, é um aperto no coração de qualquer lisboeta que se preze.


E esta é a primeira impressão.

Ao prescindir de apresentar pratos da cidade consentâneos com a envolvente, por exemplo, pratos que a alta burguesia consumiria no princípio do século XX, o restaurante perdeu a oportunidade de, no meio da indigência ofensiva que o circunda e inunda a Baixa contemporânea, ser construtivo e pedagógico, marcando, pela diferença, o que deveria ser uma obrigação para quem tem por primeira clientela, os visitantes turistas que demandam a primeira grande experiência urbanística do iluminismo europeu.

Já que optou por uma cozinha contemporânea, a meio caminho entre o usualmente apresentado e a cozinha de autor, deveria, ao menos, ser exigente nos pratos apresentados, primando estes pelo rigor, pela qualidade, pela excelência.

Não foi isso que nos apresentaram.

A entrada - "Trio Admira", bacalhau, foie gras e batata rosti - escolhida pela desafiante proposta de combinação dos dois primeiros ingredientes, não ofereceu muito, o foie abafado pela pujança do bacalhau, tímida e delicada nota no mar fibroso do parceiro, casamento desigual.


O "Malandrinho - Risotto de abóbora, goji, azeite de trufa e São Miguel" revelou-se uma malandrice, mais própria de tasca de tias desatentas e pouco habilitadas, com inversão de papeis na matéria-prima : enquanto a abóbora estava al dente, o arroz, inadmissivelmente, mais parecia papa de pequeno-almoço, tal o excesso de cozedura.





O "Porco à colher" fez jus ao nome: tenro, combinação interessante entre matérias-primas de origem geográfica diversa.



As propostas doceiras anunciadas não cativaram a curiosidade e despedimo-nos com um café.

Carta de vinhos anémica, menos no preço.

Última palavra para o serviço, desconsoladamente amador. Em que escola se ensina a perguntar ao cliente "quer mais?" quando a primeira taça de vinho da garrafa pedida já foi bebida há uns minutos e esta jaz, esquecida, numa mesa de apoio, longe do alcance do cliente?

Pela experiência, uma conta a rondar os 50 euros (para dois).

Uma desconsolada pena, oportunidade fugida, mais uma contribuição para o theme park em que insistem em transformar a cidade. Das ruas pintadas, à prompto-typical-food-com-um-twist-again, eis um digno representante.

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