Novas de São Mamede (I) - Sever

Fim de semana decidido perto da partida, dúvida entre dois desafios, pendendo a decisão para o menor número de quilómetros a percorrer: serra de São Mamede, encalhada entre o Tejo e Espanha, o Alentejo que mais longe está do lugar comum do SNI, sobreiros, mas também castanheiros e oliveiras, elevações a cortar o espaço, caminhos medievais a alcandorarem-se à crista de Marvão, verde acidentado em vez de plácido dourado.



Verdade, verdadinha, viagem filha da curiosidade crescente de redescobrir a cozinha de José Júlio Vintém, a sua celebrada mão para a gastronomia regional que desde sempre lhe embalou o crescimento, um manancial de experiências degustativas à espera de um novo encontro.



Para fazer boca, que o tempo estival recomenda preparação extra, física e mental, caminhada entre Portagem e Marvão, em trilho que já viu melhor manutenção e mais bem preparados pisteiros. Mente limpa de preocupações, olhos lavados pelo verde, a serra e o céu, uma sede a bordejar a desidratação, e um dos grandes lugares de restauração do concelho como preparação do dia seguinte e reintrodução aos sabores locais: o Sever, localizado na Portagem, na base da montanha que eleva Marvão e junto ao rio homónimo.


Lugar de tradições, visitado pela última vez há muito, a contrariar a semínima "nunca voltes aos lugares onde foste feliz" - que tentados estamos a afirmar "nunca voltes a tentar lugares onde não foste feliz"! - um manancial de pratos da tradição local.



A abrir, um gaspacho que calou fundo e acalmou definitivamente a desidratação do percurso pedestre e uma omelete de espargos que surpreendeu pela prodigalidade... e pelo esquecimento sofrido que implicou uma chamada de atenção com insistência no pedido e uma chegada tardia.



Da carta de vinhos, uma surpresa: Bairradas do século passado a preço de saldo (6€). Pelos vistos, a maldição da Baga e o mito dos vinhos velhos mortos continua presente...  Critiquem-me os especialistas que continuo a afirmar: venham mais, que as sensações que este provocou, insistem em ser repetidas.


Para as peças de resistência, um risco, os molhinhos de borrego,


e uma confirmação.


Os molhinhos, mais um produto da tradição portuguesa de tudo aproveitar num animal (necessidade ainda mais premente em regiões de carência endémica, como o Alentejo) são os intestinos de borrego ou carneiro, enrolados e atados e estufados. Amante das gálicas andouillettes, logo o anúncio deste prato me titilou o desejo de experimentar, virgem que estava relativamente ao mesmo.

Devo dizer que me desiludiu. Uma textura como a do papel, muito pouco auxiliar do inevitável sabor forte, associável à função daqueles, a tornar difícil a degustação e a tornar imprescindível a procura de algo mais ancorável - como um pedaço de pão - para, comido em simultâneo, retirar a impressão de se ter transformado a boca num moinho de fábrica de celulose.

Provado foi, será difícil provado voltar a ser.

Para terminar, uma jornada boa, esta oferta da casa, a sublinhar o inevitável café expresso.


Continua a ser local de paragem, este Sever.

Restaurante Sever,
Portagem
7330-347 MARVÃO
+351 245 993 192 ; sever@mail.telepac.pt

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