Por uma prática da ruptura



Historicamente, é assim o país, foi assim que a nós, enquanto cidadãos, nos construiu: a chegar atrasados à contemporaneidade, receosos, pouco inventivos, braços de um mesmo corpo castrador.

Cidadão me reconhecendo, confesso, no entanto, que estou farto, cansado, mentalmente exaurido desta vidinha de copianço, destes fogachos de chico-espertos de imitação, destes reis de meio olho que, ambliopando lá fora, aqui inauguram com foguetório de criação.



Concedo: há excepções. Tímidas, tão seguras do seu caminho quanto interrogativas de cada novo passo a tomar. São locais da minha preferência, da minha permanência seriam, fosse mais breve a distância, maior o orçamento disponível, menor a inquietude de mais procurar. Mas são excepções.

Gostaria de, por uma vez, ver tendências que não fossem importadas, ver pratos que não fossem copiados, ver tendências que fossem genuínas, emanações de um querer colectivo ou de uma necessidade de expressão individual única.



Cozinheiros que fizessem a síntese entre um determinado palato português e a investigação levada a cabo pelos centros de excelência nacionais.

Hotéis familiares de excelência, perdidos em aldeias perdidas, a serem motores de cultura e da produção agrícola local.

Um centro de pesquisa marítima que aliasse à análise piscícola o estudo do aproveitamento gastronómico de cada espécie disponível na Zona Económica Exclusiva.

Uma política séria, abrangente, articulada com os diversos sectores abrangidos, que permitisse o lançamento dos Açores como o mais entusiasmante destino gastronómico da actualidade, complementado pela diversidade de paisagens, pela transparência das águas, pela excitação do contacto com cachalotes e golfinhos, pelo suspense de se pisar lava ou escórias vulcânicas.

Tanto para criar e tão poucos para o fazer, tantos para o evitar...


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