Culinária de Lisboa #42 - Copos de três



Querida Mô,

Lamento e penitencio-me por estes longos meses sem dar notícias. Passaram estações. Passaram coisas, a vida em câmara lenta, com os disparates habituais, os espelhos, os tigres, os labirintos. Fechei portas, olhei por janelas, o mundo lá fora a correr, um rio de águas estranhas, escuras muitas vezes, revoltas às vezes. Não sei como lhe dizer isto sem parecer de uma patética patetice, cada vez me entusiasmo menos com o que quer que seja, dos edifícios à arte, da gastronomia aos vinhos, do meu país aos meus concidadãos. Tudo está totalmente visto por esta encanecida mente - da hipocrisia do poder e dos eternos aspirantes, às palavras que digo e não dizem mais nada. É como se um cobertor de silêncio apoucasse os sentimentos e de nada servisse pontapeá-lo, esbracejar, empurrar.

A cidade esvai-se, entre derrocadas, demolições, inevitabilidades. Sinto aqueles prédios onde se desistiu viver como extensões de mim e a sua morte como uma gangrena que, lenta e segura, acabará por me liquidar. Sem medicamento, placebo ou analgésico. De nada serve a indignação, o protesto, os textos. Nada de nada serve, nesta Tiananmen urbanística com rumo determinado por gente determinista. Não resulta ter razão fora de tempo. Não resulta ter razão quando razão não há.




A memória gastronómica tende a desaparecer, longe, cada vez mais longe, ficando os cheiros e os sabores das ruas, a soturnidade nasce hoje dos brilhos equívocos, da animação porque sim, da artificial genuinidade. Come-se mal, festejadamente, celebram-se reis de papel, opiniões vácuas, cópias pretensiosas, ignorâncias.

Do amor, restou o caminho inseguro, mal percorrido e mal interpretado, só percebido a posteriori, tarde demais, longe demais. Cicatrizes e tristezas, cegueira e silêncios errados, falta de coragem, estoicismo estúpido. Todas as minhas paixões cessaram de me ser, toda a minha paixão - mesmo em fogo penosamente baixado, mesmo em negação defensiva, mesmo disfarçada de amizade - ruiu, recusada, terminada, enganada.

Sou um abjecto ser que assume duas faces - a que me olha no espelho, de que me é impossível fugir, e a que componho para lá de mim, muitas vezes ignorando a outra, esquecendo a outra, fazendo por não reconhecer a outra.

Feche-me, por favor, à chave, e não encontre o vaso por baixo da qual ela iria se esconder.



COPO DE TRÊS

Percorra a Lisboa dos bairros populares e das ruelas esconsas: é possível que ainda consiga dar com um tugúrio que finja ter abrigado a fúria normalizadora dos fiscais da Câmara e a obsessão sanitária dos polícias da ASAE. Procure o balcão de alumínio e peça um "copo de três". Com sorte, o vinho é tradicional: duro, pouco elaborado e barato. Insista no barato: "da casa" e vindo de perto.

Beba de um trago, bata com o copo no balcão e peça outro de imediato. Repita a operação, até o gosto de desagrado desaparecer, a angústia se tornar mais suportável e a dor uma coisa de outro lado.

Comentários

Muito bem Pedro. Um abraço Virgílio
Pedro Cruz Gomes disse…
Obrigado, Alexandra e Joe.
Paulina disse…
Pedro, já viu o sol que está hoje. Há sempre um outro ângulo para olhar para as coisas. O sol vai ajudar.
Pedro Cruz Gomes disse…
Obrigado, Paulina, beijo.
jakim disse…
Que saudades! In illo tempore, quantas ruas e ruelas percorridas batendo grossos copos de dois e de três no balcão de castiças tascas entre dois dedos de conversa e uma azeitona trincada, a puxar mais uma pinga. Bons tempos! Agora é só "enólogos" encartados, de nariz franzido e guela susceptível... Que lhes havemos de fazer?

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