Joaquim Arnaud e a Oficina do Vinho

Neófitos: no universo gastronómico, o que conta não é a opinião de um ideólogo - o que conta é o prazer e o grau de prazer que cada experiência gastronómica vos traz. Por certo que, apesar das diferenças, o prazer pode ser trabalhado - treinando a atenção dos sentidos, repetindo experiências - e é por isso que insisto na escrita: tenho a ilusão de, com ela, apontar caminhos possíveis, ajudar a novas descobertas, trilhos pouco partilhados mas passíveis de maior comunhão.

Percorrendo a cidade e o país com a curiosidade e os pés que a genética me concedeu, o orçamento que os clientes me disponibilizam e as dicas que amigos e gestores de comunicação me sussurram, vou deparando com lugares e ofertas que me entusiasmam ao ponto de entender um desperdício não as partilhar.

A Oficina do Vinho já foi competentemente divulgada por muitos e melhores veículos mas só agora tive oportunidade (e, convenhamos, vontade suficiente) para a descobrir e, assim, sobre ela perorar.

Situa-se em Campo de Ourique, desde há muito o bairro mais bairro de Lisboa. Tem uma identidade única, que lhe advém da organização urbana ortogonal, da multiplicidade de estilos arquitectónicos que se fundem sem ofender, do ambiente ameno, incólume a cheias, correntes de ar ou outras provocações meteorológicas.



Nela, realço a contemporaneidade de o que foi, durante séculos, um hábito citadino: ir à taberna ou ao merceeiro, comprar vinho avulso, normalmente das regiões circundantes da capital, mas também (ainda que mais raramente) da região de origem do proprietário ou de algum seu conhecido. Aqui, as proveniências são distintas, de Trás-os-Montes ao Alentejo, podendo ser levados em vasilhame de 1, 2 ou 5 litros.


Contemporaneidade que se liga ao vinho escolhido - mais produções de pequenos produtores do que vinho agranelado -, aos cuidados de preservação e serviço e ainda ao conceito de reutilização do vasilhame, muito em linha com as preocupações actuais de conservação de recursos e de prevenção da poluição.


Destaque igualmente para os produtos gastronómicos à venda, dos enchidos às conservas e doces, ao pão, às ervas aromáticas secas.

(Fonte: Oficina do Vinho)
Resolvendo iniciar uma actividade regular de eventos degustativos que complementem a sua oferta base, inaugurou a série convidando - em boa hora! - o produtor Joaquim Arnaud a apresentar alguns dos seus enchidos, bem como o presunto de vaca, trazendo este igualmente consigo, à prova, as migas de espargos do seu concelho - Mora - ousando uma nova abordagem, mais seca e menos homogénea na textura mas não menos deliciosa.

(Fonte: Oficina do Vinho)
Gloriosos produtos. Joaquim Arnaud, produtor diversificado - do vinho ao azeite, do porco ibérico e da vaca alentejana aos produtos seus derivados (carne, enchidos e presunto) escolheu o presunto de vaca (cura de sete meses, fumo de azinho e carvalho na última semana),



e dois enchidos de porco ibérico, o salsichão e o chouriço, todos curados em Espanha, na Andaluzia e na Estremadura, locais com a sapiência e a tradição de sabores que Joaquim Arnaud quis dar às suas criações.




E são muito bons: valem uma prova longa e repetida.

Oficina do Vinho
Rua Correia Teles, 22 A, Lisboa
Horário: 11h-20h. Sábados, 9h30-19h. Fecha domingo

(Declaração de interesses: este texto foi escrito enquanto se degustava um muito agradável Valpaços adquirido na Oficina.)

Comentários

Nos últimos 30 dias...