Culinária de Lisboa #43 - Cadelinhas



Querida Mô,

Durante anos sentimo-nos assim, os mais brilhantes da nossa rua, capazes de alcançar não importa qual estrela, de empreender não importa qual expedição, de resolver não importa qual equação; capazes de ser tudo, vibrantes, amados, desesperadamente intrépidos, comovidamente apaxonados; capazes de ter tudo, reconhecimento, a resposta para o mundo, o segredo do coração de quem amamos.

Um dia, olhamos para trás (e só quando olhamos para trás) e descobrimos que esse mundo ficou algures. Silencioso, afastou-se, de nós levando o entusiasmo e deixando a melancolia e a indiferença do pôr-do-Sol. 

Escrevo-lhe à beira de uma praia da Costa, num renovado paredão que me entedia pela banalidade da solução mas que me permite um diálogo encantado com o mar e este Sol de ainda Inverno. A violência das ondas esconde-se num fim de tarde quase bucólico, não fora a velocidade dos passantes, em tentativas de jogging e o troar dos ritmados aviões, em demanda da Portela. A Costa só me faz sentido nestes meses mortos de baixa estação, refúgio de reformados e passeio de desempregados, quase um subúrbio para personagens de Lobo Antunes ou Cardoso Pires, afastadas as multidões em romaria, a falta de espaço, a comida sem préstimo.

Procuro na baixa-mar a linha de que o Zé Trufa me falou - o vinco da maré - limite visível da última tentativa da maré para conquistar a areia, local improvável da maior riqueza do mar, refúgio das conquilhas mais gordas, suculentas, deliciosas. Ei-la, onde um solitário iniciado busca a recompensa do dia. Sigo-o com os olhos, absorto, perdido do presente.

Todos nós portamos esse vinco da maré, onde a genética nos deposita e o destino decide entre apanhar-nos ou nos ignorar.



CADELINHAS

Num mês com "R" e de véspera, escolha uma praia da Costa da Caparica com areal simpático e, na baixa-mar, munido de saco de tamanho certo e mão em ancinho, dedique o tempo necessário para apanhar a quantidade de bivalves escondidos na areia que lhe garanta uma tarde calma em tranquila cavaqueira ou troca de olhares gulosos.

Em casa, dê-lhes repouso até ao dia seguinte, em bacia funda, cobertas com água e sal, que terá o cuidado de mudar duas ou três vezes, até, no fundo, deixar de nascer a intrometida areia que traziam consigo.

(Aproveite para verificar o frigorífico - está assegurado o volume certo, de cerveja ou vinho branco que, em apoio discreto, mas firme, acentuará a felicidade do repasto?)

Nasce o dia: ei-las prontas a cozinhar.

Fatie os dentes de alho descascados, a cebola despida. Pique um punhado de salsa. Abra ao meio um limão. Abra a primeira garrafa - seja consequente e utilize, para perfume do prato, a bebida que escolheu para a refeição.

Refogue lentamente, em azeite com uma pouca de água, o alho e a cebola. Quando translúcida a segunda, usando de alguma liberalidade, borrife com o espírito escolhido, inspire o vapor para se sentir mais leve (com algum distanciamento: um nariz irritado iria ser muito má companhia) e instale as cadelinhas nessa cama.

Coloque a tampa de vidro (é um preciosismo; poupa-lhe o trabalho de a levantar, se opaca, para verificar o progresso da cozedura), agitando com alguma frequência. Quando as bichinhas estiverem em uníssono coro (de casca aberta), chegou a hora: apague o lume, prove o molho, salgue e picanteie a gosto, espalhe a salsa, molhe com o sumo de limão.

Manda o carácter do prato que o sirva no tacho: é como a Tendinha, rasca e banal e mal andaria a companhia se notasse a geometria do mesmo. Quem é que vai reparar no recipiente quando ocupado pela mecânica da recolha manual das conchas, pelo consciente sorver do seu interior ou pelo voluptuoso chupar dos dedos untados do saboroso molho?

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