Dinastia Tang



Deixando para o final a óbvia - a gastronómica - várias razões existem que justificam a frequência obrigatória deste restaurante:

A geográfica

Há que tirar o chapéu à coragem de se implantar uma casa com esta dimensão num local tão longe da moda, tão afastado da grandiosidade (que é rara, mas existente, em algumas partes da cidade), tão separado da vizinhança aconchegante dos seus. Poço do Bispo?, perguntarão, zona de armazéns decrépitos, de prédios em desgraça de abandono, com o skyline de guindastes portuários, e as paredes de contentores como pano de fundo?

Que maravilhosas descobertas, que oportunidades para novos negócios, para a inovação, para a mudança de vistas!








A visita alimentar começa por ser assim, para muitos, um refrigério de vistas, uma descoberta da outra cidade - antes da descoberta gastronómica, a descoberta urbana. E, só depois, o franquear de um outro mundo.


O que me leva à segunda razão:

A espacial

É um espaço que procura fazer jus ao nome - Tang, é o nome da dinastia que imperou na China medieval, entre os séculos VII e X, sendo este período considerado o ponto mais alto da civilização chinesa - tendo os seus proprietarios recorrido a peças genuínas, obras de arte, mobiliário de estilo. Pouco importam as escadas de espelho alto que nos provocam os joelhos e desafiam os pulmões.
Ao entrar, viajamos para um outro tempo, anterior a neons e globalizações.  Queremos ser servidos naquelas mesas, aguardar com expectativa por detrás daqueles biombos treliçados, conversar em voz baixa sob a média luz, para não interromper o fluxo de mandarim ou cantonês que nos chega das mesas vizinhas.

Somos estrangeiros, mas nunca nos sentimos tão bem.





... o que nos leva à terceira razão...

A gastronómica

É como na praia: perante um mar mais encarpelado, um dia murcho ou uma temperatura de água próxima da de um esquentador sem gás, ficamos a bordejar o mergulho, convencidos que o mesmo se cumpre com o gelo sentido nos pés, a maresia no nariz, o ar peganhento de sal a colar-se nos braços. Mesmo aceitando provar novos mundos culinários, admitimos quase sempre mordiscar as bordas, arriscando-nos apenas no caminho mais parecido com a nossa tranquilidade.

Infelizmente, este deve ser o primeiro segredo aprendido por qualquer candidato a fornecedor de comida nacional em país alheio pelo que, na maioria dos restaurantes étnicos, a regra principal denomina-se ADAPTAÇÃO o que significa que se torna difícil encontrar um local que se mantenha firme na autenticidade dos pratos oferecidos. Ou melhor: difícil se torna encontrar um espaço que não possua uma cozinha esquizofrénica, devidamente dividida entre a oferta ao estrangeiro visitante - que é local... - e a saudade aliviada ao compatriota que aparece.

Neste Dinastia, ela também acontece mas de um modo ligeiramente diferente: respeitando o pudor em enfrentar o desconhecido, da maioria de quem o visita, tem preparado para a mesma, pratos que a manterão em equilíbrio gustativo, perto das suas certezas. Fá-lo, no entanto - e isto não é assim tão comum - com excelentes mãos, trazidas propositadamente da China.




Guarda, ainda, surpresas para quem as conseguir descobrir. Para aqueles que as sabem existentes; para os que encontram significado nos ideogramas; para os insistentes.

Como estas entrada de algas, provadas numa primeira visita, saborosas e quase viciantes

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ou as línguas de pato, com o característico sabor da carne de pato a combater a textura elástica e uma aparência que pode ser desencorajante.


ou, principalmente, este prato sem tradução (feijão fermentado com carne de porco picada) e que provou... alguma coisa?... fortemente desaconselhado "a portugueses porque só os chineses gostam" e que soube maravilhas (um pouco como carne de porco alentejana sem batatas nem ameijoas mas com muitos picles...).




Já o Frango Kung Pao me pareceu mais próximo da amedrontada agradabilidade ocidental, sem o picante original, característico da cozinha regional de Sichuan (uma das oito clássicas cozinhas chinesas)  e com a adição de pimentos.


Num segundo jantar, mais oficial, de menu proposto pela proprietária, a pena que senti por não sermos desafiados para uma viagem pelos pratos mais secretos disponíveis, foi compensada pelo bom sabor de toda a refeição.

Dos crepes de camarão,


aos dim sum, no caso cantoneses Siu mai, pedaços de massa (à falta de um melhor termo), com recheio à base de carne de porco picada, cozidos em vapor.


Da beringela recheada com carne picada e molho doce,


ao entrecosto frito.


E ao que, finalmente!, foi o primeiro prato de peixe de tradição chinesa que me entusiasmou experimentar - apesar do peixe ser perca do Nilo... - com a profundidade de sabor do caldo, a presença do picante, os diversos sabores e texturas presentes.


Dos doces chineses não reza muito a minha história pelo que me limito à referência visual e a dizer que foram do agrado geral.




Como me parece demonstrado, casa merecedora de uma descoberta prolongada. Visitemo-la, pois.


Dinastia Tang
Rua do Açúcar n.107
Tels.:967145938/ 218680467

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