Mãos na massa


O local foi a nóvel Academia TimeOut mas poderia ser outro, da mesma família...

É inevitável: convidem-se jornalistas e bloggers gastronómicos para uma sessão na cozinha e o resultado será um impulso incontrolável para a anarquia. Melhor - para a fotografia.



Concentração absoluta, o olhar fixo no ecran, domínio da técnica...
Raul Lufinha, o dono da Mesa do Chef

E para a conversa - e para o exagero (o pedaço de vazia que calhou ao Miguel Pires não era nada daquele tamanho!).



Mas quando é o próprio mentor/ curador / ensinante Rodrigo Menezes (já lá voltaremos) que é o primeiro a ser atacado pela irreprimível vontade de registar o momento para a internética posteridade... todos os perdões são exigíveis.



Bom. Comece-se pelo princípio, que um texto que se quer credível & informativo não pode ser assim, conversa de comadres que conhecem na perfeição o sujeito e o objecto (toca o relógio sem cuco / dá corda à cusquice das vizinhas / e eu / confesso às paredes...), piscar de olho aos amigos, name-dropping quase bird's dripping eeeeeeeeeeeee........ perdi-me.

Sim. Comece-se pelo princípio.

O princípio é, naturalmente, a Academia TimeOut, prestes a abrir. Instalada na recém-concluída pluricozinha da revista (a qual funcionará igualmente como espaço de testes e cenário para produções fotográficas próprias), instalada no Mercado da Ribeira, orientada, por enquanto, para pequenos ciclos de formação - os das manhãs mais virados para turistas, incluindo vista e compras (para a aula) no mercado; os da hora do amoço, pensados como alternativa gastrossexual às marmitas ou aos restaurantes vizinhos (sessões curtas, mise-en-place assegurada, frita-grelha, prova-emprata e hop-voilá!); os do fim de tarde, mais longos e mais sectoriais, ensinando tanto técnicas base como dicas e aperfeiçoamentos para pratos ou cozinhas específicas - a Academia promete marcar a vida culinária da cidade. Conta com o entusiasmo e a arte do seu curador, um apoio institucional sólido e uma base de recrutamento (a legião de leitores fieis da revista) suficientemente alargada para garantir a empresa.

João Cepeda, director da TimeOut - revista e mercado, apresenta o projecto
Da culinária sessão, planeada para dar a conhecer e testar as potencialidades de uma aula-tipo, fica resumo ilustrado, começando pela proposta de entrada,


cantarelos gema-de-ovo (Cantharellus cibarius, para os muito íntimos) com cebola, em cama de pão saloio, torrado e perfumado com alho. Simples, eficaz e suficientemente scrumptious (perde um bocado na tradução - experimentem dizê-lo alto e depois arranjem uma palavra portuguesa que saiba ao mesmo) para cativar quem se queira muito - olhem lá para a cara do Rodrigo, a cativar os cativados e já a falar do prato principal.


(A Alexandra Prado Coelho já brindava, em antecipação. Jornalistas gastronómicos... bah, põe-se-lhes um copo na mão e é esta iridescência...)



Prato principal que estrelava este magnífico naco em rossinianas núpcias prometido.


Não sem antes ser pedagogicamente preparado (frigideira em ponto de ferreiro, uma pouca de azeite até quase espumar, fritura até capa de moreno, uma só virada e tempo suficiente para mudar de cor), obrigatoriamente descansado enquanto se caramelizavam os quartos das batatas previamente cortadas em gomos e finalmente fatiado.

(A vizinha do lado encantava-se com a facilidade
com que cumpria uma tarefa que, até aí, julgara intransponível...)

Após o que, a sensível noiva, era insensivelmente deitada no anti-aderente leito e em agruras infernais veraneada,


até ficar em ponto de rebuçado - perdão, de caramelo (casamento à antiga, vejam lá a idade que o senhor Rossini, fosse ele ainda vivo, hoje teria),


e topear este, contra todas as normas do bom-gosto, e com escândalo educado do Über Foodie, Pica-pau Rossini.


Nem o melhor dos gastrocuradores consegue calar a impetuosa e anarquista voz da classe escribária...

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