Entomofagia: free your mind



Do consumo gastronómico de insectos está o mundo não ocidental cheio. Originada na inevitabilidade (quando pouco mais proteínas existem disponíveis), na necessidade (quando as restantes proteínas se tornam indisponíveis) ou na disponibilidade (quando a variedade e quantidade se unem a uma filosofia, religião ou visão do mundo), a degustação destes seres chega a atingir relevância tal que os alcandora à condição de componentes essenciais da dieta das populações.

No Ocidente, a associação dos mesmos a interditos sociais vários, leva a maioria da população a colocá-los na categoria dos gastronomicamente recusados, ainda que a análise da composição dos mesmos seja fortemente tendente à sua classificação como alimentícios e fonte alternativa de proteínas. Infelizmente, como bem sabemos, o condicionamento mental é bastamente superior à força da razão, sendo tarefa a exigir muita repetição e esforço de vontade, a eliminação de tabus tão antigos como a repugnância que a presença da maioria destes animais provoca.

Numa tentativa de diminuição gradual deste sentimento e da promoção do consumo de insectos, tem vindo o centro Ciência Viva a promover simpósios de entomofagia, onde, para além de uma abordagem teórica, se convidam os participantes a colocarem em prática os ensinamentos, quer pela preparação de refeições, quer pelo seu consumo.



Intrépida, a maioria dos alunos do Mestrado de Ciências Gastronómicas, aderiu a um seminário dedicado ao tema, sendo recebidos por um comité de boas vindas dos prestes a ser degustados.


Ó desgraça, ó indecisão, quem daria o primeiro passo na prova? Provei e lembrei-me de uns péssimos bombons da minha infância, com um exterior crocante e um viscoso recheio, quando, ao mastigar do exterior se seguiu um sabor... de difícil habituação.

Mais divertido - porque de criatividade plena e resultando em sabores bem mais interessantes - foi o trabalho de criação e preparação de pratos entomofágicos originais.



E houve de tudo um pouco, de uma maionese de grilos e vermes,



a uma omelete de larvas,



 ou a uma terra doce, devidamente incrementada com proteína animal...



A conclusão pareceu-me inevitável: sobrevivemos... como todos os povos do mundo que os estão habituados a comer. Não comemos nós caracóis sem que a repugnância nos tolha? Não comemos seres providos de exoesqueletos (como os camarões, por exemplo) sem que clamor público ou privado exista? 

"Cosa mentale", chamava Leonardo da Vinci à pintura. Também eu defendo que a nossa aceitação desta matéria-prima é coisa mental: lentamente perderá a nossa razão as objecções de consciência, responsáveis pela repugnância maioritariamente sentida e quando delas se desligar, o mundo gastronómico ocidental ganhará alguns milhares de novas possibilidades.

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