O Sonho dos Irmãos Roca


El Somni, foi um projecto de dois anos, dos irmãos Roca, com o qual procuraram, num evento (infelizmente) único, realizar uma refeição que proporcionasse aos comensais uma experiência degustativa que aglutinasse às sensações provocadas pela comida, as induzidas por estímulos visuais e sonoros, no caso dados pela projecção de imagens, na mesa e nas paredes e pela execução de trechos musicais especialmente escritos para a ocasião.

(Fonte: aqui)
Na composição e realização, alguns dos grandes nomes das cenas artísticas catalãs e europeias. Na eno-gastronomia, os anfitriões. À mesa, 12 figurões, da gastronomia (Harold McGee e Ferran Adriá) à física, da engenharia à biologia, da música aos palcos.



No âmbito do festival "Peixe em Lisboa" foi realizada, com a presença de Joan Roca, uma apresentação do documentário realizado sobre este jantar.

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"El Somni" is a unique film showcasing the creative process of more than 40 artists who participated in a dinner. The film, in the form of a 12 course opera with the culinary creations of El Celler de Can Roca, is directed by Franc Aleu

Web: http://www.elsomni.cat/en

O debate que se seguiu, mais que providenciar respostas, motivou ainda mais interrogações, deixando alguma desilusão sobre o aparente desperdício, por parte dos seus organizadores, do potencial daquele evento.

Duarte Calvão, Joan Roca, Paulina Mata

" (foi) Uma experiência pioneira, levando ao limite a junção entre gastronomia, música e imagem", afirmou, Sergi Pau, organizador de eventos. Palavras dele, não minhas. Procurando ilustrar 12 passos da vida do ser humano, os autores juntaram o alegre e o triste, o bom e o terrível, o alegre e o penoso, esquecendo - ou fazendo por esquecer - que, numa refeição, a esmagadora maioria dos seres humanos adultos procura, a seguir (por vezes antes) à necessidade de alimentação (ou seja, de sobrevivência), o prazer. Ora, sociopatas à parte, morte e prazer são mutuamente exclusivas, pelo que preencher parte de uma refeição com imagens de horrores - guerra, violência, destruição, mutilação -, sublinhadas por harmonias dissonantes, é negar a essência dessa mesma refeição; ultrapassar essa incongruência, não a explicando como parte de uma provocação destinada a uma reflexão mais aprofundada sobre o acto de comer, sobre as influências dos sentimentos sobre os sentidos e vice-versa, ou não reconhecendo a incoerência, é uma pena e, de certa forma, deixou-me uma sensação de que se procurou mais a exposição mediática e a glória do efémero do que um passo na investigação do futuro.


Lembrei-me do terceiro membro da tripulação da Apolo XI (Michael Collins, alguém se lembra do seu nome?) que, depois de anos de preparação, depois da felicidade de ser escolhido para a missão que tinha como objectivo a alunagem de um módulo tripulado e a glória de, pela primeira vez, caminhar na Lua, acabou por se "limitar" a orbitar em torno do satélite enquanto aos seus colegas era reservada uma página na história da humanidade. Os irmãos Roca foram, neste jantar, o tripulante brilhante que concebeu, escolheu a equipa e concretizou um primeiro jantar que, do princípio ao seu final, integrou três artes, cada uma direccionada para um sentido. Ao optarem por tornar a experiência irrepetível, ao preferirem torná-la um ícone, ficaram, no entanto, em órbita: falhou-lhes a audácia de transformarem um happening num hábito, numa tendência. Ao contrário do afirmado, repetir a experiência não a tornaria elitista - seria a economia de escala, que a sua multiplicação traria, que a tornaria menos cara, logo mais acessível. Por outro lado, sabe a pouco não extrair conclusões - o filme e as declarações do chef incidiram principalmente sobre o lado espetacular: nada foi averiguado sobre a correlação entre preferências dos pratos e a temática correspondente, sobre a influência de cada peça de música no humor da sala, sobre a alteração - ou não - do sabor, com cada música (como reflexão era o prato de Blumenthal, "Sound of the Sea")...

Ocasião perdida? O tempo o dirá. Da parte dos irmãos Roca, não parece existir interesse em repetir a experiência. Veremos se alguém terá a coragem de empunhar a bandeira para a levar mais à frente no avanço da gastronomia contemporânea.

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