Fandango no Tivoli: a semana ribatejana



O restaurante Terraço, no topo do edifício do Hotel Tivoli Lisboa, tem uma das mais bonitas vistas da cidade, talvez só alcançada pelas do Panorama e do Via Graça. Nestes primeiros dias de Outono ainda parecemos sobrevoar o mar verde da Liberdade, distraindo-nos com a visão de algumas das jóias arquitectónicas da avenida que ainda vão resistindo à cupidez disfarçada de interesse pela cidade que o eixo Baixa-Campo Pequeno vai exibindo.


Tendo por companhia visual algumas das colinas, a enquadrarem os azuis ribeirinho e celeste e os diversos locais da cidade onde, por certo, fomos felizes, qualquer refeição ali tomada é uma declaração de pausa, uma acalmia nas inquietações, um repousar desta década.


De braço dado com a alma mater do projecto Portugal de Norte a Sul, Maria de Fátima Moura, franqueámos mais uma etapa do Portugal restaurativo regional que, desde há mais de um ano, periódica e paulatinamente, o Tivoli vai oferecendo à cidade.

Desta vez foi o Ribatejo a visitar a avenida, pelas mãos de Rodrigo Castelo, a razão por trás do escalabitano “Taberna Ó Balcão”. Autodidacta e ribatejano dos quatro costados, colocou no menú o que me parece ser a essência gastronómica da sua terra - os produtos que o Tejo e a lezíria oferecem, a par dos vinhos tradicionais do Cartaxo - e as suas próprias origens enquanto cozinheiro - os petiscos, os pratos familiares - a par da sua visão e criatividade.

Sabores que, enquanto lisboetas, reconhecemos familiares (não é a nossa memória gastronómica a soma das influências de todos os que, no passado, demandaram a cidade grande?) e nos iluminam o sorriso.

Como o destes croquetes de rabo de toiro, a derreter-se na boca ou do torricado de cachaço de bacalhau, prato de pescadores mas também petiscada de amigos, aqui domado para uma refeição mais citadina, mas igualmente saboroso.


Retirados ao rio,  a fataça, e os invasores lucioperca e lagostim, a darem corpo e sabor ao Tártaro de peixes e marisco do rio servido como entrada, uma combinação muito fresca, com o crocante de camarinha a acrescentar textura. Muito bom, e só por ele a valer a pena a  refeição.

Tártaro de peixe e marisco do rio

Prato que homenageia o seu pai, a Massa à barrão é um guisado de peixe que cativa pela simplicidade da criação e a profundidade dos sabores. Prato tradicional, trazido pelos trabalhadores sazonais vindos do bairro (da margem direita do rio, na zona de Santarém) para a lezíria, aqui depurado, diria que contemporaneizado, visualmente geometrizado pelas múltiplas curvas, com duas abruptas rupturas - a aleatoriedade da superfície do crocante e o verde dos rebentos. Que longo caminho percorrido, das humildes malgas dos trabalhadores braçais às formosas formas de um restaurante de referência! E, no entanto, que perenidade no sabor e na satisfação provocada...

Massa à barrão
Não podendo faltar o ex-libris da região, reservado ficou para o final um Rabo de toiro com puré de favas e hortelã, Aqui, uma subtileza de confrontos e uma delicadeza das texturas, que contrasta com a memória de imagens agressivas (touros e touradas). Para saborear de olhos fechados, sem passodobles ou trompete.

Rabo de toiro com puré de favas e hortelã
Para finalizar, uma catadupa de sobremesas. Destacando o celeste, com a acidez do gelado a controlar a riqueza de ovos e açúcar deste ex-libris conventual escalabitano, confesso que o conjunto gelado de melão/crocante me soube pouco subtil. Preferências...

Celeste em tarte com gelado de laranja


Gelado de melão com pimento e sementes de abóbora em crocante
Concluindo, justificada presença como representante de um concelho valente nos seus sabores e orgulhoso das tradições, a exigir visita a Santarém para conhecer a casa mãe. Lá irei em romaria.

Mais uma vez, parabéns à Maria de Fátima Moura e aos responsáveis do Terraço pela iniciativa - que venham as restantes "províncias", definição administrativamente desactivada mas que nos continua a fazer muito sentido!...

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