Tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é fado?



"(...) Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara. (...)"
in "Tabacaria", Álvaro de Campos
Quando me restauro fora, é pela comida que sigo. Seja ela reconfortante, estimulante ou desafiadora, a envolvente arquitectónica que a rodeia não se torna determinante. Nada tenho assim contra as tascas - há, na sua inevitável austeridade, um convite à descontracção, uma frugalidade de rigidez que me atrai, que permite uma melhor concentração no essencial.

(Tenho, sim, contra os tascos, ruídos sebentos na paisagem alimentar, caça-niqueis avaros de dádiva, sem arte nem consolo, às vezes despidos de gosto, outras vezes excessivos na pretensão.)


A convite de excelsa amiga, demandámos a Mouraria para a (re)descoberta de um dos mais mitificados locais bem-comer de inspiração moçambicana, o clássico O Cantinho do Aziz. Se a reserva prévia de mesa pareceu aconselhável face às dimensões reduzidas que me lembrava ele ter, as limitações horárias anunciadas na resposta ("só às vinte ou vinte e uma e trinta, temos dois turnos de hora e meia, findos os quais têm de sair") soaram-me um bocadinho exageradas, excesso de zelo para quem se deslumbra com a procura, apressadamente tratando quem está, na esperança de agradar a quem vem.


Não querendo apressar ainda mais a refeição, cumprimos razoavelmente a pontualidade e, a las ocho más ou menos, abordámos a encosta, via Beco dos Surradores. As vielas escusas e mal limpas a contrastar com o fluxo de turistas em visual felicidade, o amarelo torrado da iluminação pública a deixar promessas de icterícia nos passantes, os desenhos do reboco esboroado nas fachadas a competir com as tags e a arte pública que, já neste século, passaram a tutelar as paredes oitocentistas do bairro acompanharam-nos no percurso.

O Cantinho que conheci introspectivo num rés-do-chão discreto, está agora extravasado para o exterior, com ocupação feérica de um recanto da ruela, coberto por plásticos heterogéneos, profusamente aquecido por parafernália variada de produção de calor. Mesas mancas, cadeiras em inclinação quase fatal, clientes à beira de um involuntário abraço colectivo, um ar de arrumação ad-hoc a lembrar as festividades juninas. "Tasca mais tasca é difícil", pensei. Olhada a lista, os pratos "de assinatura", a profusão de linguagem contemporânea com acento nos "chef" e nos presidente-e-embaixadora-que-nos-visitaram, nos "vegan" e "gluten free", causaram alguma estranheza pela dessintonia existente entre o visto e o anunciado, a pretensão e a realidade.




Ao menos a comida, senhores, a comida que nos salvasse desta impressão de aproveitamento apressado da fama ganha e da procura turística crescente, a pedir muito e a pouco dar em troca.



E a comida, que nos salvou, fez-se esperar. As chamussas primeiro, fritas na hora, não totalmente secas de óleo, com brandura picante provelmente adequada à maioria dos clientes, decerto não "as melhores de Portugal", mas cumpridoras a contento. Fazendo-se esperar, o prato de camarão que dividimos, eram quase nove (e lá se foi o rigor do primeiro turno, pensei), pouco depois, as costeletas de borrego, igualmente divididas. Para finalizar, uma bebinca cumpridora e uma mousse de caju muito interessante, pelo agradável sabor pouco habitual de encontrar por estas paragens.

Miamba Wa Macua - Gambas com banana-pão, em  molho de coco e óleo de palma

Bakra piri piri - Costeletas de carneiro em molho avermelhado com legumes e picante; arroz de coco




Comida saborosa, ainda que em doses diminutas, a transformar o que parecia um valor razoável num preço... europeu.

São estas experiências que me fazem desejar que se crie, para os restaurantes, uma tabela de afixação obrigatória que, à maneira da eficiência energética de electrodomésticos e habitações, classifique a relação qualidade/preço de um restaurante. Onde prazer gastronómico, conforto, serviço e instalações fossem comparados com o valor final da conta.

Por esta (três Laurentinas, duas chamussas, duas doses, duas sobremesas) foram 43 euros.

Cê menos.

Comentários

Infelizmente tenho de concordar contigo. O sucesso vai aos poucos dando cabo do Cantinho. Mas qual era a alternativa deles? Manterem-se entre portas com uma pessoa na cozinha e outra na sala, como eu os conheci, já lá vão muitos anos? Na verdade, aumentar o número de mesas sem aumentar a capacidade da cozinha, também é dificil de entender. Eles têm tentado mas acho que vão perdendo os clientes antigos, e ganhando dinheiro novo. Até um dia...
Manuel Santos disse…
Estive no Cantinho do Aziz no final de Novembro. A impressão foi a mesma: "Mesas mancas, cadeiras em inclinação quase fatal, clientes à beira de um involuntário abraço colectivo, um ar de arrumação ad-hoc"...Qualidade em falta, para os preços que praticam.

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