Callum-se todos, sff


State et videte: ainda é possível um futuro português que parta do passado

sem Camões, nem Pessoa, nem os obscuros heróis travestidos de Glórias com que nos alimentaram infâncias

e nos encha os dias de remansoso prazer.

Há algum tempo, ouvi o Prof. Virgílio Loureiro falar com amor dos vinhos de talha alentejanos, do bojo de milénios que carregam cheio e provei, com a descoberta de um amor que se haveria de revelar perene, um desses processos arrancados à memória dos homens.

Há dias, na Escola, não estava o professor para me despertar a atenção, mas a obra falou por si e calou-me a conversa - um novo/velho vinho, um novo respeito, uma nova referência que se instalou sem anúncios nem base de dados de empresa de comunicação, emanação de um povo que no rio muitos séculos lavou, trabalho de formiga/formigas que um dia decidiram inverter a caminhada no carreiro e, andando para trás, procuraram empurrar para a frente.

Callum.

Vinho "antropológico", nas palavras recolhidas em outros fóruns, de casta que resistiu à tragédia oitocentista da filoxera e que se confinou a recantos do concelho, junto a linhas de água, quase esquecido, quase história de família, de vizinhos.

Vinho que é branco mas nos parece verde e nos provoca a dúvida dada a distância que o separa da região oficial dos vinhos verdes. Baixo teor alcoólico, notas minerais, frescura na boca. A pedir mais.

(E podíamos ter tido mais - que óptimo local e bela oportunidade para, aproveitando o repasto, a Escola espalhar mais um pouco de pedagogia e o município mais um pouco de divulgação do concelho!)

Fique-se então pendurado de novas provas e marque-se a ida a Oleiros para a redescoberta (para os neófitos, sem "re") deste e doutros milagres escapados à modernidade, à normalização, às maiorias.

Enquanto isso, à História o que foi história (não gosto dessa modernice - "estória" - inventada pelos jornalistas de "A Bola" e papada pelos dicionaristas mais recentes), ficando mais abaixo pormenores deste almoço dedicado à gastronomia do Pinhal Interior (aí está mais uma classificação que se terá de prolongar durante muito tempo nos escaparates do Ministério do Ordenamento até ser interiorizada pelos portugueses...), representada pelos representantes de Oleiros - a saber (assim, com direito a ser substantivo próprio), o Maranho, o Cabrito Estonado, o Coelho Bravo, a Lebre, o Achigã, as Filhós, a Tigelada, o Queijo de Cabra.


Ao Maranho pertence o andor principal da longuíssima procissão dos enchidos nacionais. Apesar da elevada concorrência de todas as variações dedicadas ao porco, estas sacolas de bucho de cabra prenhas de carne de cabra, presunto, cebola e arroz, com as notas de hortelã a bailarem-nos intensas no nariz, que a mais deveriam agradar (ou talvez não, que a vulgaridade é má conselheira e o recato dos happy few que as procuram traz pouca margem de lucro mas ajuda a manter a integridade), são concentração de paixão, capazes de desatinar os mais fortes, gerando-lhes lágrimas de prazer a cada nova garfada.

Maranhos. Enrola-se a língua a pronunciá-los, sublima-se o palato nas voltas que a boca lhes dá.


Merecem primazia, assim, como Inês, postos em sossego sobre cama de couve, desassossegando-nos completamente.

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Mas antes tinha havido o queijo de cabra e a broa, muito discretos a um canto do foyer, à espera de procura como se vergonha fosse saber-se tão bem...

E o arroz de fava, na sua casca, fado maior do fumo dos enchidos e da untuosidade do porco e mais a textura das favinhas a variar entre o crocante e o rugoso, lamento lento e saudoso...


E depois o par de leporídeos em distintas preparações (a carecer de melhor visual, concedo, mas que tão bem souberam). "Noodles!", tinham-me dito na cozinha, feitos à estrangeira mão, com destreza, mas que aqui foram completamente caseiros, calabotamente caseiros, cama para o molho de gula e a almôndega que deveria ter sido tripla.


E, então sim, veio o senhor Maranho.

Só de seguida, para nos recordar que do rio também os oleirenses trouxeram subsistência, chegou o achigã, que já foi intruso mas que, em cinquenta anos, ganhou estatuto de boa apanha e melhor petisco.  Entalado entre a fatia de pão barrado com creme de alho e o ácido escabeche foi opção que desejo repetir com mais vagar para melhor a gozar.


E confesso a injustiça da preferência anteriormente expressa: diva, diva na crónica deveria ser o esplendoroso cabrito estonado, nome maior em cartaz túrgido de delícias. Olhem para esta pele e neguem - atrevam-se a negar! - o apelo irresistível, a inegável volúpia que provoca, a tentação absoluta de pecar!


Assado nas novas instalações da Escola, em pátio que cada vez mais se torna zona de salivação e antecipação de prazeres para os - sim os happy few... - que se amesendam às *feiras dos almoços, o cabritinho (mês e meio ou mais de seis quilos para não saber a leite) que deu fama e proveito à terra,


o cabritinho apresentou-se bonito (e tããããão pouco...) mas composto para soirée bem comportada. Louve-se a compostura e lamente-se a ausência de assadeira de servir e do resto da tarde para, conversando, a esvaziar...


E uma filhós em par com um troço de tigelada, unidas por enigmático smile. Rir de quê, agora que o prazer em ocaso se aprestava a entrar?


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