Uma história do Estória

Comer fora deveria ser - sempre - uma viagem. Uma viagem - não à volta do quarto em reconhecimento do quotidiano, não à terra própria em episódios avulsos - de emoções, de sensações descobertas dentro de cada um, ignoradas antes, antecipadas nunca. Uma viagem de óbvios não realizados, de ovos Colombianos, de prestidigitação apurada. Uma faena nos limites, plena de bravos e voltas de honra; uma caminhada bordando o risco, enquadrada em paisagens memoráveis, altivas montanhas e oclusos vales.

Comer fora deveria ser fechar os olhos, suspirar de prazer e parar o tempo - uma e outra e ainda mais vezes.

Onanismo quase imperativamente solitário - apenas convival quando a companhia seja uma promessa maior para esta ou outras viagens.

Ao seu espaço da Cruz Quebrada, chamou Vítor Areias, com propriedade, Estória. Porque se propõe, a cada refeição, contar uma nova história, proporcionar uma nova viagem, criar novos elementos de sedução.

Vítor Areias (fonte: site do restaurante)

Tendo lá ido pouco após a sua abertura, num Outubro de má memória pessoal (não tendo guardado pormenores do que provei, alheado da simpatia da comida, da qualidade do cozinheiro), aqui voltei recentemente para, numa viagem a convite do proprietário e responsável pela cozinha, conhecer as suas propostas de Verão e, passada a tempestade, poder dar atenção e colo ao que me era colocado sobre a mesa.

Conheço o Vítor há alguns anos, desde um primeiro jantar de degustação da sua, infelizmente breve, incursão pelos jantares privados. Cruzámo-nos no Mestrado em Ciências Gastronómicas que ambos frequentámos e pude conhecer as suas propostas na fase final do Assinatura. Sei assim de sabor provado a sua arte e inventiva, intuindo portanto que a noite iria testemunhar a boa experiência que teria. Mas qual! Mais que boa, a viagem foi de estalo, uma (perdoem-me o sabor a marketing da frase) verdadeira montanha-russa de emoções.

As pastas de entrada

Começou com um primeiro momento de ambientação de que destaco a pasta de tremoço e o "húmus" de feijão preto, a deixar claro que o caminhar, no Estória, se faz por pouco habituais trilhos. Cremes de barrar o pão saboroso, feito no restaurante, cremes de troca de olhares ou de pensamentos perdidos, a olear disposições: primeira subida da montanha, despreocupada, alheando apreensões.

"Tártaro" vegetariano

Segundo momento, grande momento. Não fora o aviso prévio da ausência de proteína animal, a muitos enganaria, num primeiro instante, o "tártaro" vegetariano apresentado. Um tempo suspenso ante o abismo, a primeira garfada e uma descida vertiginosa: oh, que bem sabe! Acidez de várias origens, o apimentado do queijo, uma textura que era de carne mas de carne não seria, mais uma garfada e uma vontade enorme de provar, provar, provar. Um desafio ao saber, o que é a matéria-prima principal que o compõe e nos descompõe, subida curta, curva apertada à direita, nova descida a pique... o prato vazio.

"Tártaro" vegetariano

Expectativa.

Rabo de porco

Um prato de rabo de porco. Hum!... A pele crocante em jeito de cornucópia, com a ambrósia da carne do reco, bem cozida, bem temperada, repousada sobre o molho que novo arrepio e novo suspiro de prazer proporcionou. A acompanhar, uma salada ácida e crocante a, canonicamente, cortar a santa gordura que, entrelaçada com a carne, culpava de pecado fundo toda a experiência. Descida, loop de trezentos e sessenta graus, curva em parafuso. Mais.

O prato de bacalhau

Avisadamente, seguiu-se lenta viagem panorâmica, de descontracção e preparação para o restante: um bem composto lombo de bacalhau com capa de pimento vermelho, tratado várias vezes em desidratações e hidratações. Após as fortes emoções anteriores, um momento apaziguamento visual e gustativo, complexo, profundo, porto de abrigo, momento de acalmia. Excelente preparação, com um bom grau de inovação, a pedir repetição noutras núpcias, noutra sequência.

Então sim, um prato que apareceu quase convencional mas que, logo à primeira garfada, se mostrou surpreendente: lombo de coelho com arroz de cabidela do mesmo, com este a pedir lágrimas de devoção, tal o apuro, tal o puxado de acidez, tal o gosto profundo, de outras eras, do fundo das nossas memórias caseiras. Curva apertada à esquerda, curva apertada à direita, subida curta, descida pronunciada, cabelos nos olhos, mãos aos céus (Sem foto; há momentos assim, de concentração ou distracção absolutos).

A sobremesa

Para terminar, uma sobremesa-síntese: gelado de queijo de cabra com morangos e a sua calda, aplacado com raspas de casca de lima. Simplicidade (aparente), sazonalidade, nacionalidade. Refrigério face às cacofonias visuais que insistem em continuar na moda, esta foi uma óptima maneira de terminar uma muito boa refeição.

Vale a pena a peregrinação para descobrir esta Estória? Mais longínqua fosse a viagem!... Insistindo em não se repetir, procurando a novidade do mercado, a renovação de cada época, a história do Estória é plural, prometendo aos repetentes contínuas novidades. Segredo que o não deveria ser, a ele é devido o seu lugar na história da gastronomia lisboeta.

Ide, neófitos, a Cruz Quebrada e em força!

Restaurante Estória
R. Sacadura Cabral 54, 1495-705 Cruz Quebrada

Comentários

Unknown disse…
Eu também me cruzei com os dois no Mestrado em Ciências Gastronómicas. E gostei muito! Ainda gostei mais de ver o jantar preparado pelo Vitor e o texto do Pedro.

Adorei!
Pedro Cruz Gomes disse…
Obrigado, conhecid@ desconhecid@...! ;-)
Unknown disse…
Esqueci-me de assinar. Mas sabe quem é! Ficamos assim.

Contente de o ver de volta à escrita
Pedro Cruz Gomes disse…
Dito dessa maneira, sei sim. :-)
Stéphanie disse…
Meu prof, Chef, pessoa fantastica... What else normal que ele transforma os pratos numa explosão de sensações.

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