Gazeteiros nas Escolas Gerais

Lisboa tem uma rua que engana quem vai ao engano: tem nome de rua (que lhe fica mesmo a tiracolo) mas não tem rua no nome. A mim enganou-me que troquei a rua pela não rua e em percurso adiantado levei, à procura da errada, os meus dois companheiros que se fiaram em quem não deviam. E a Alexandra à espera.

Esclareço: em Alfama, existem a rua das Escolas Gerais e a Escolas Gerais (que também é rua mas dela não tem o nome), para além das escadinhas das mesmas. Todas evocam o sítio onde foi implantada a primeira universidade portuguesa (com a denominação de Escolas Gerais ou Estudos Gerais) que neles funcionou entre 1293-98 (não se conhece exactamente a data da fundação) e 1537, com alguns anos de alternância com Coimbra, para onde se mudou definitivamente nessa data, enviada pela decisão de D. João III de piedosa e não muito alegre memória.

(Desintervalo o momento histórico-cultural)

Em terra de Gazeteiros que tem amigos assim é rei:
Mário Cerdeira, Maria de Fátima Moura, Alexandra Prado Coelho, PCG (da esquerda para...)
(Foto: Mário Cerdeira)
Em dia de investigação gastronómica, juntaram-se 4 curiosos gastrónomos, com diversos modos de "trabalhar o produto" (1) -  Alexandra Prado Coelho, Maria de Fátima Moura, Mário Cerdeira e eu -, para a descoberta de um novo espaço, situado precisamente na rua das Escolas Gerais. Gazeteiros na aparência, mas em trabalho, a Os Gazeteiros rumaram e, entre conversas múltiplas, troca de informações, impressões, decisões, arvoraram o seguinte testemunho, da qual sou o único redactor e subscritor:

1. É o restaurante Gazeteiros uma interessante casa de comida, de sossegado estar visual, de descomplicada existência e fleumática postura, onde - pelo menos nestas horas de almoço e dias solares - sabe bem ficar, em troca de ideias ou olhares, de afectos ou cumplicidades. Da decoração pode dizer que foi levada a sério sem se levar a sério - não nos insulta com pose soberba, antes insinua um lado cosmopolita numa localização medieva sem com ela chocar.



2. Tem o Gazeteiros como oferta um menu de 3 pratos ao almoço e de 4 pratos ao jantar que mudam conforme o mercado e a disposição do cozinheiro. É tentador (e pode ser arriscado para o frequentador) mas merece atenção: trabalhar sem rede dá saúde e faz crescer. Os vinhos em oferta denotam cuidado na escolha, um chauvinismo francês que se faz por relevar e um exagero nos preços que é comum no país mas que roça o absurdo (quando o único serviço que, neste capitulo é prestado, é a abertura da garrafa e o fornecimento do copo).



3. Oferece o Gazeteiros uma comida de mercado, de conotação internacional, dispensando (pelo menos no menu experimentado) os hidratos mais quotidianamente nacionais. Sem prejuízo de nova interpretação, aparenta ascendência nas directivas da Nouvelle Cuisine (o que não deslustra - antes pelo contrário; com tanta proposta corrente a querer ser moderna sem passar de ser modernaça é agradável este despretensiosismo): leveza, frescura, inventiva.





4. Está aprovado o local. Actue-se em conformidade.

E viva a amizade.

Os Gazeteiros
Rua das Escolas Gerais, 114/116, Alfama, Lisboa
Tel. : 218860399 ; 939501211

Horários: De 4ª a Sábado - 12:00 a 15:00, 18:00 a 24:00 Restantes dias fechado

Estacionamento: Deixar o carro no parque de estacionamento público situado junto às Portas do Sol. Se turista ou masoquista, vir de transportes públicos: o 28 - apesar das filas, apesar dos apertos, apesar dos carteiristas - é um veículo delicioso que nos faz perguntar porque raio não congregam esforços a CML e a Carris para estender o seu alcance à maior parte da cidade.

(1) - Private joke só minha

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