Liberdade para o Tabik

(Fonte: Tabik Restaurant)

Em Portugal, os restaurantes de hotel têm, incompreensivelmente, uma extrema dificuldade em ser levados a sério. É um caso generalizado: há quem os leve demasiado a sério, colocando-os no domínio das impossibilidades; há quem não os leve nada a sério, colocando-os no domínio dos refeitórios.

Questão sociológica - as massas temem-nos; as ma$$a$ desdenham-nos.

Perante isto, alguns deles refugiam-se na sua torre de marfim, concentrando-se olimpicamente em bem alimentar a elite que fugazmente os habita; outros resignam-se, esgotadas todas as estratégias de sedução, e a qualidade da sua cozinha acaba por ser do domínio de poucos, num sentimento de injustiça sem fim, paredes-meias com a bem-aventurança de quem os frequenta. Há ainda um terceiro grupo que faz como se não fosse, estabelecendo uma forte ligação com a rua e afectando um perfeito grau de surpresa perante a sua integração num espaço hoteleiro - pais sim mas cada um na sua casa.


Há no Tabik -  restaurante que vive paredes meias com o Bessa Hotel na Avenida da Liberdade - uma arquitectura que me impressiona pela coragem que revela em algumas das suas facetas: o jardim vertical numa das paredes do pátio interno; a piscina para os hóspedes em alegre convívio com o bar aberto; a prevalência da madeira de pinho na decoração de toda a sala. A força da madeira (e de um carácter mais comum a ela associado) é, aliás de tal grau que me parece condicionar em absoluto o espírito da casa e da sua cozinha - o que, se feito acertadamente, pode ser a sua característica maior e a sua força.

(Fonte: Tabik Restaurant)
"Façam do Tabik um restaurante descontraído e com cozinha contemporânea, com raízes firmes nos produtos nacionais e que busque inspiração no receituário nacional e internacional" parece ter sido o 1º Mandamento Restaurativo escutado pelos responsáveis do restaurante. E assim se fez.

Muito bem se fez - português como a madeira, cosmopolita como a decoração, o Tabik oferece-se como porto de abrigo gastronómico aos visitantes que flanam pela avenida. Tem uma boa carteira de pratos, bom serviço de vinhos - com representativa selecção dos produtos nacionais, cuidado nas temperaturas, diversidade nas quantidades, aconselhamento nas maridagens -, preços apelativos para o target apontado.

(Fonte: Tabik Restaurant)
Tendo o Chefe Executivo Manuel Lino, responsável desde a inauguração, saído para se dedicar ao seu projecto Trio (ainda que continue presente como consultor), cabe agora ao Chefe Hugo Dias de Castro assegurar a continuação do bom desempenho da cozinha.

Em almoço recente, a convite, para apresentação da carta a alguns gastrónomos e enófilos, foi evidente a boa disposição que um menu com alguns dos pratos da carta actual induz. Com um correctíssima escolha de vinhos por parte de João Saraiva e Jorge (o consultor da casa), foi um convívio pleno de conversas e de troca de ideias, a comprovar que o objectivo procurado - ser um espaço de restauração que promove o convívio e de onde todos saem contentes - está alcançado.

Quanto aos pratos, a gula que provocam começa nos olhos - vejam-se as fotos - e continua na boca. Conviviais ou mais reservados, descontraídos ou mais compostos, há opções múltiplas o que só abona a favor da disponibilidade para atender às expectativas dos clientes.

No sentido dos ponteiros do relógio, a partir da esquerda alta:
Ovo cremoso com escabeche de legumes; Ceviche de peixe do dia (robalo); Ovos rotos com presunto; Queijo amanteigado no forno com compota de tomate; no centro: Tártaro de novilho com espuma de coco, chalotas doces e picantes


Atum com maçã e courgette em texturas; Polvo grelhado com rôsti e puré de cebolas; Dourada com batata confitada e legumes do mar; Lombo de bacalhau com favinhas estufadas

Leitão com cevada e puré de maçã

No centro e à direita alta: Torta de cenoura com mousse de chocolate branco e gengibre;
Esquerda alta: Panacotta de buttermilk com texturas de chocolate;
Direita baixa: Tarte tatin de pêra com nata de baunilha
Gostei.

TABIK RESTAURANT
Avenida da Liberdade, 29A
1250-139 Lisboa – Portugal
Tel.: +351 213 470 549

Horários:
2ª a 5ª: 12h30 – 15h00 ; 19h30 – 22h30
6ª e Sab. : 12h30 – 15h00 ; 19h30 – 23h00

Bar
2ª a 5ª: 12h30 – 01h00
6ª e Sab. : 12h30 – 02h00


Comentários

Acho que os restaurantes de hotel são desconsiderados em Lisboa porque, temos de reconhecer, durante muitos anos serviram uma "comida internacional" banal, quando não francamente má. Com algumas honrosas excepções, claro - Penha Longa, Sheraton, por exemplo.

E isso só começou a mudar há quê, 5 anos?

Além disso, há restaurantes de hotel que nem sequer fazem qualquer esforço para se divulgarem ao público em geral, de onde deduzo que não têm real interesse em atrair esse público.

Não sei se estás de acordo comigo.
York House, outra excepção, já frequentava nos anos 90.
Pedro Cruz Gomes disse…
Concordo, claro, Artur, foi o que escrevi: alguns concentram-se em alimentar os hóspedes. Mas estás a reduzir muito o leque. O Aviz - que não foi do nosso tempo... - tinha uma cozinha prestigiadíssima, chefiada por dois nomes de registo no século XX - os Chefes Manuel Ferreira e João Ribeiro. Depois, parece-me que o Ritz terá tido sempre uma cozinha de qualidade, compatível, aliás, com o desejo de Salazar que inspirou a sua implantação (do hotel da cadeia internacional) em Portugal.
Entendo que essa generalizada falta de qualidade no passado estaria em consonância com a generalizada (oh, iconoclastia! oh, boutade!) falta de qualidade da cozinha restaurativa lisboeta em muitas décadas do século XX (e não só). Se não havia - muitos - grandes restaurantes de hotel, quantos grandes restaurantes fora do hotel haveria?
Acho que me vou dedicar a escrever um post, elencando os disponíveis nos anos 70-80...
Obrigado pela contribuição.
Pedro Cruz Gomes disse…
A York House terá sido sempre um lugar de excepção, começando pelo recolhimento do pátio e pela ambiência de jardim secreto, de segredo íntimo e instransmissível.
Olha, animado pelo teu post, tentámos ir ao Tabik ontem mas, após a caminhada vindos da Cinemateca onde vimos o fabuloso The Strange Love of Martha Ivers, estava com um evento privado.

Este tipo de coisas também não ajuda, até porque não vi nenhuma referência a isso na página do restaurante, que consultei. É um facto que não fiz reserva, mas ainda assim...

Acabámos n'O Talho, a comer um excelente tártaro.

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