Culinária de Lisboa #44 - Rissóis de camarão

Querida Mô,

Cidade sempre-em-festa, cidade atarefada, cidade rarefeita durante o dia e silenciada à noite; cidade tripartida, tripolar, de destinatários e objectivos diversos, cidade que se contenta a si própria julgando que contenta os seus; cidade amada, cidade que se olha triste e triste é nos meus olhos tristes.

Faz hoje um ano que a passei a percorrer mais só, idas as mãos que me moldaram, idos os sentimentos que me nutriram, fizeram crescer, podaram justa ou erradamente. Como continuar a olhar os mesmos lugares de maneira igual, como lhes aspirar os mesmos cheiros, sentir as cores e as formas do mesmo modo se já não sou o mesmo, se mesmo silencioso e ausente na aparência este vazio me quebrou, me endureceu, me tornou um outro, amputado, com menos realidade, menos empatias?

Nem à cidade posso recorrer para, através dela, recuperar um pouco das memórias, através dela tornar presente um passado não mais repetível, através dela amenizar esta dor da ausência, este frio, esta vida de outra maneira que passei a ser obrigado a viver.

A menina está longe mas está-me perto, existe, mesmo que a um oceano de distância, é possível inventar dia após dia as suas emoções, perplexidades, descobertas porque, mesmo inverdades, elas serão o espelho, distorcido talvez, mas de algo que continua a acontecer. Por aqui, não mais. Um pano preto sem brasão nem debrum, uma opressiva ausência de som, o vácuo.

A vida continua, continuará sempre, esta ou outra, a minha ou de muitos outros, o que sinto nem sequer é original, apenas um ritual infinitamente repetido desde que ao ser humano uma alma lhe nasceu. E esse roubo, essa colectivização de uma dor que é minha, só minha, unicamente minha, aprofunda ainda mais este negrume, esta desistência do mundo, esta obviamente errada mas tão arreigada vontade de parar, dormir, esquecer.



RISSÓIS DE CAMARÃO

Massa
1 chávena de água
Sal grosso
50 gr margarina
1 chávena de farinha

Num tacho, deita-se a água, algumas pedras de sal grosso e a margarina. Leva-se ao lume e assim que começar a ferver deita-se a farinha aos poucos, mexendo sempre até fazer uma bola. Tira-se do lume sem deixar formar crosta. Sobre uma tábua, dá-se mais umas voltas, batendo bastante. Deixa-se esfriar e só então se estende, sem empregar farinha.

Recheio
Camarões (de preferência de Espinho, dão trabalho a descascar mas são muito saborosos)
1 colher de sopa bem cheia, de farinha
0,5 dl leite
0,5 dl da água de cozedura dos camarões
1 colher de sopa de manteiga
1 limão

Cozem-se os camarões, tendo o cuidado de não os cozer demais. Reserva-se a água. Descascam-se e, com o auxílio de um passe-vite, espremem-se cascas e cabeças, juntando-se o líquido obtido à água de cozedura. Deixa-se esfriar.
Faz-se um molho branco com a farinha, a água,o leite e a manteiga, temperando-se com sal e pimenta a gosto. Deve ficar grosso. Juntam-se os camarões, e tempera-se com limão.

Estende-se a massa. Usando um copo com o diâmetro igual ao comprimento que se quer que os rissóis tenham (usar aquele copo verde que era da avó Maria - ficam com o tamanho certo), cortam-se círculos de massa. Com uma colher de café coloca-se uma porção do recheio num das metades de cada círculo de massa, tendo cuidado para não colocar demais (senão ao fritar vão rebentar). Dobram-se os círculos a meio. Passam-se primeiro por ovo e depois por pão ralado. Fritam-se em óleo (pode ser em azeite mas eu fiz sempre em óleo que é como aqui em casa gostam).

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