Mudar ou ser mudado



É ou não legítimo alterar as receitas tradicionais?

Contra, perfilam-se a argumentação histórica, de precisão, de respeito pela herança recebida, da inutilidade de se alterar o equilíbrio, a perfeição, o sublime: em puro "futebolês", em equipa que ganha não se mexe. Certo? Ãnhhhhhh...

De que falamos quando falamos de culinária? De técnica ou de História? De cultura ou de comida?

Estava a ouvir este trecho do Max Richter,



e comecei a pensar... nos pasteis de bacalhau com queijo.

Depois, como as ideias são como as cerejas do Fundão, lembrei-me de um exemplo ainda mais radical: Urlicht/Primal Light, o disco que o Uri Caine fez, tomando como ponto de partida algumas das composições de Gustav Mahler



Teriam os bons e velhos Antonio e Gustav apreciado esta apropriação dos seus arranjos de notas?

Também Mozart pegou em canções tra-di-cio-nais e as transformou...



Porquê esta animosidade?

(Declaração de interesse: No caso particular dos pasteis, acho-os um desperdício de matérias-primas, com uma acumulação de sabores tão fortes que se anulam mutuamente. Quanto ao "ataque" à tradição, na rua do lado os atentados são bem maiores...)

Presumo que seja contra a patetice. E contra a fraude.

Convenhamos que há uma diferença entre uma variação assumida, justificada, coerente com um pensamento, uma sensibilidade, uma... visão, ideologia, razão e um prato mal executado, por falta de conhecimento, de técnica ou, simplesmente - por poupança.

Mas, objectarão alguns, como distinguir entre atabalhoamento e merecimento, entre atentado e criação?

Sendo cada prato dirigido a um só comensal, caberá a cada um dos destinatários decidir. Como em tudo, no entanto, convirá que todos - do executante ao consumidor, entendam as regras, acabadas de ser postas em questão. E, para isso, será necessário que elas existam, estejam divulgadas e bem apreendidas.

Existem? Estão? São?

Comentários

A talho de foice.

O disco Mahleriano do Uri Caine é muito bom. A Winter & Winter era uma excelenteeditora que se especializou precisamente nesse tipo de "infidelidades". Ainda se apanham uns restos na Dargil.

O Beethoven também tem umas canções, com base em canções tradicionais inglesas, escocesas e irlandesas, fantásticas.
Transformar a tradição é fantástico. Roubar é respeitar e homenagear, se for feito com seriedade, se houver real reconhecimento das fontes e real honestidade e propósito no "roubo".

O problema é quando essa seriedade não existe, mas isso é um problema mais geral que não se prende apenas com este tema.

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