A Feira do Fumeiro de Montalegre (I) -Viagem em três movimentos

Recuso-me a denominá-la uma visita ao Portugal "profundo", terreno fértil para políticos em angariação ou jornalistas presa de títulos preguiçosos. Vou até Montalegre em procissão devotada à procura de aprender. Com o gesto abarco muito do que, em Lisboa, é miragem ou raridade: diversidade e preços justos, uma portuguesa maneira de tratar o quotidiano que escapa à preocupação diária, aos atrasos do Metro, às filas modorrentas, à dissonância entre discurso e realidade - um real mundo que a capital e os media filtram por irreal. E se os dias que, no passado, a viagem demorava podiam justificar tão radicais oposições, as quatro horas actuais apenas acentuam o que de errado se mantém neste minúsculo rectângulo, tão ilusoriamente próximo, tão dolorosamente assíncrono.

1.
Oito da manhã. Praça da Figueira aguada e quase deserta e a Manteigaria Silva que acorda tranquila, derradeiro abencerragem das vinte e quatro (24!) manteigarias que chegaram a coexistir entre a Baixa e o Chiado. O que, noutras latitudes passa por civilização, progresso inteligentemente entremeado com balizas culturais, toma entre nós foros de excepção. Uma sala de tesouros e o convite para um salto a um modo de vida que incluía compras com destino e destinatário, escolhas assertivas e baseadas num conhecimento das existências e dos sabores. Quem freguesa esta casa, quem deliberadamente procura os queijos personalizados pela cuidada cura que José Branco assegura nas salas interiores, os presuntos altaneiros, os enchidos cuidados, o bacalhau islandês, os vinhos seguros, executa um acto de higiene cultural que não só deve ser mantido com regularidade de amante como propalado à cidade e às gentes.

(Fonte: Manteigaria Silva, pag. Facebook)
2.
"It's twelve o'clock and time to lunch (bum-bi-dum-bi-dum)"

Chove infinitos como infinitamente choveu em grande parte da auto-estrada. São João de Rei é um manto de cinza a cobrir o verde minhoto. À porta, com o nunca demais sublinhado charme discreto de quem sabe ser - e como ser - o perfeito anfitrião, chefe de sala, master chef, Vitor Peixoto.


O Vitor é (e alguém que me desminta com provas...), em Portugal,  o restaurante onde melhor se come bacalhau. Não são só as postas de um outro tempo de abundância pesqueira servidas em apequenada loiça de barro pela dimensão oferecida; a assadura consciente e brilhante; as batatas assadas, a cebola com um toque de vinagre; o verde da região; os bolinhos de bacalhau que fazem jus à maternidade minhota; a alheira montalegrense que chega de intrusa num mundo tão absolutamente gadusmorhuafilico e se fina em glória e olhos marejados; o leite creme de lambuzar; é tudo e mais qualquer coisinha, a intemporalidade que o olhar ganha quando percorre sala e paisagem, o sentir-se bem.

É.

O sentir-se bem,






3.
Todos aparentemente iguais, todos diferentes. A arte de descortinar diferenças ganha-se com amor e com o tempo. É assim nos interligados sabores que compõem um prato bem sucedido ou no subtil nariz de um vinho de eleição. É assim igualmente nas complexas harmonias destes produtos do fumeiro de Montalegre que, neófito, me obrigo a observar em quase silêncio, neste primeiro contacto feiral. Sigo à ilharga do Chefe Diniz, e aprendo com o entusiasmo deslumbrado que ainda o habita, cidadão honorário do Barroso. Sangueiras, ceboleiras, chouriças, bucheiras, presuntos, alheiras,  cabeças, barrigas e pés, de abóbora chouriços, salpicães,  folares e pães: amanhã haverá mais.


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