A Feira do Fumeiro de Montalegre (III) - O cozido barrosão


Do centro pouco geográfico de Lisboa, difícil se torna assimilar realidades tão distantes quanto um quotidiano de Inverno rodeado de neve, granito e verde, de fragas austeras e de declives suaves recortados por obedientes e bem cuidados muros de pedra aparelhada à mão, de silêncios vários que nunca soam iguais e dos cheiros que o fumo envolve.


As terras de Barroso são um mundo involuntariamente receptivo às palavras cansadas da capital, ao afã febril da capital, às luzes fugazes da capital. Em que se tornará esta permanência da actualidade alheia, cada vez mais rapidamente depositada à porta de quem lá está por quem nem os suspeita?


Vindo do outro lado, apesar da abertura de espírito, nunca deixarei de ser um intruso, um observador curioso e disponível, solidário e receptivo, alienígena sempre, apesar da adaptação. E se essa condição me possibilita um encantamento mais profundo, um prazer mais sentido porque novo, um entusiasmo de descoberta renovada, não deixa de me tornar de alguma forma fechado ao verdadeiro sentir dos seus autores e actores, personagens principais dessa paisagem, desse mundo, desses tempos.



Do nevoeiro de Montalegre à neve viva de Pitões das Júnias bastou o intervalo dos castanhos hibernados e dos musgos vivazes de Penedones. Castanhos que o cozido do almoço evocaria, e mais as batatas que, por aqui, se coroam rainhas de Portugal. Ao longe, a albufeira, a transmitir azuis desmaiados ao fundo das fotografias. E o musgo, anunciador de ares límpidos, colonizador bem vindo, belo porque menos visto.



A caminho do ermitério. Isolamento e concentração espiritual de mãos dadas com o difícil trabalho da sobrevivência, a Bíblia e o cajado em alternância nas mãos calejadas e gretadas dos monjes que aceitaram demandar este vale perdido. A que profundezas da fé (ou da fome?) seria preciso recorrer para suportar esta solidão, este afastamento dos homens, este constante fustigar da natureza, belo e aterrador, injusto e recompensante?


Das ruínas percorridas entre abertas de uma chuva cada vez mais geladas, ressaltam os traços românicos originais, contrastados pela salvadora e contemporânea cobertura de telha da igreja. Do resto, da ordenada através de séculos vida monásticas, das ânsias, dos medos, dos êxtases, da mesquinhez do quotidiano e da glória da vida para além da morte, restam paredes em derrocada próxima, alquebradas pela alternância de gelo e Verões abrasadores, protecções para brincadeiras de neve.






Passado, presente e futuro, a várias mãos. Das arcadas que restam do antigo claustro, aos formandos de mais um curso de Culinary Arts (EHTL), sob o alto patrocínio de Nuno Diniz e José Branco (Manteigaria Silva)
A temperatura cai e neva por fim, numa prática demonstração dos extremos naturais. Que venha o almoço.


Covelães, O Monte Alegre. Cozido barrosão para todos, o mesmo para os outros. A lembrar que mais que uma receita exacta, o cozido é um prato de existências locais, onde não não podem faltar as batatas e a penca, a carne de porco (que, em dias ricos, leva a cabeça/orelha, queixo, barriga, pé, pernil), os enchidos (chouriço de abóbora, farinhota, chouriça de carne, sangueira, salpicão) e a vitela.

Um mundo.




E disse.

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