O primeiro dos cozidos


Era uma vez o último cozido di(o)niziano de 2017.

Cheios de boas intenções, herdaram-nos os antigos a noção que aos últimos está reservada a primazia, não sei exactamente de quê, se da nossa compaixão, se da nossa memória.


O agouro também nos chamou a atenção da dualidade da palavra e reserva na sua utilização, não fosse o mais recente encerrar a sua carreira prematuramente, passando a ser o derradeiro.

Desta vez, o último foi assim anunciado mas com a ressalva de se referir ao ano presente, o que deixou muito boa gente com o queixo caído por ter perdido o tempo certo das reservas e outros tantos a pedir ainda mais celeridade na passagem do ano do que na conclusão de certos inquéritos do Ministério Público. (Bom. Adiante com a política que, por aqui, só se aceita a de espírito e a que Rafael Bordalo tão bem idealizou, from nose to tail.)

Para mim, este último foi o primeiro do ano mas, mesmo se repetido, seria sempre "o primeiro", já que todo ele veio imbuído de um sabor de descoberta só possível porque por mãos neófitas foi preparado. Eis a combinação perfeita para a frescura: olhos bem abertos, espíritos ávidos, e mão sabedora a guiar. Eis a frescura da mente inquiridora que ainda não automatizou os gestos, desemocionou os preparos, indiferenciou os clientes e aperfeiçoa o gesto, bebe a explicação, adopta caminhos, faz e quer saber reacções, faz e ainda duvida, faz e ainda quer melhorar.



E o cozido assim feito rescende, e o cozido assim feito torna-se divino, e o cozido assim feito entra-se-nos na alma mais fundo que a poesia e os livros santos.

Com um intróito de consommé de cozido (um caldo clarificado e perfumado com a inescapável folha de hortelã)


a que se seguiu, elevado a sujeito, o canónico arroz imbuído da acidez do chouriço de sangue e a cobertura de uma faria de paia de toucinho,


foi um cozido barrosão, com a maioria dos seus elementos a serem cultivados ou produzidos em Montalegre: enchidos (10 variedades), porco fumado, batatas, para além do Nispo (pedaço cortado da perna) de Vitela Barrosã fresca, focinho, entrecosto e barriga de Porco fresco, couves coração e lombarda, cenouras e nabos,


Para garantir que, "ninguém ia para casa dizer que tinha comido pouco", subornaram-se os açucaradamente susceptíveis com um leite creme de arredondar a tarde e criar doçura na memória no dia, garantida mas ainda em sintonia com os tons verde-acastanhados da paisagem barrosã. Hajam amarelos torrados para equilibrar o mundo.

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