A Festa, de babete, na Cervejaria Liberdade


Não sei se se recordam de Babette, a infortunada cozinheira que, alguns anos depois de ser acolhida por uma comunidade puritana na Dinamarca, aplica todo o dinheiro ganho na lotaria num jantar de reconhecimento que lhes permita vislumbrar o que era o seu mundo e possibilitar umas horas de prazeres mundanos. (Não se lembram? Vejam o filme - vale a pena -, leiam também o conto de Karen Blixen que o inspirou e prossigam para os restantes contos e depois leiam o Out of Africa e vejam o filme - ah, a Meryl Streep e a banda sonora...)

Bom. Para um apaixonado pela gastronomia, o tempo de preparação do jantar, o desenrolar do mesmo, as reacções que provoca, os sentimentos que deixa, são poderosos catalisadores para, não só um desencadear de emoções (gula, inveja, prazer, evocação de boas memórias) como para uma reflexão sobre o acto de comer e as transformações que pode induzir, as relações interpessoais, a vida e as oportunidades desprezadas, as ideias seguras e os resultados inseguros, o passado, o presente, o futuro.

Bom. Não é sobre nada disto que eu pretendo escrever, mas quando, há uns dias, me encontrei sentado a uma mesa da Cervejaria Liberdade, com mais alguns comensais, todos devidamente equipados com babetes, foi inevitável brincar com o trocadilho para disfarçar o embaraço por me sentir voltar, não ao tempo das cerejas, mas a uma infância muito pequenina e muito dominada, de sopa dada à boca, bolachas de água-e-sal e brinquedos que guinchavam.

O extra posh prendedor do babete, belo design,
por si só a justificar a exibição do alvo adereço
A Cervejaria Liberdade. Recentemente inaugurada no piso térreo do Hotel Tivoli, enquadrada no projecto de renovação de todo o espaço (que irá contemplar igualmente o restaurante Terraço) a cervejaria posiciona-se não só como herdeira da tradição gastronómica lisboeta de bem acompanhar a cerveja mas como um upscale dos tradicionais espaços, apresentando visual e serviço cuidados, muito acima da média, e uma atenção ao pormenor que é de saudar.



As "cervejarias" instituíram-se em Lisboa com o início da industrialização do fabrico da cerveja, na segunda metade do século XIX. A primeira grande casa que adoptou este nome foi a, ainda existente, Trindade, a partir de 1850 veículo de escoamento da produção da fábrica homónima, sua vizinha, instalada catorze anos antes no espaço que tinha sido do convento dos Frades Trinos da Remissão dos Cativos, muito afectado pelo terremoto e "privatizado" no seguimento da lei de extinção das ordens religiosas promulgada em 1834. Nela se criou uma das várias receitas clássicas de bife da cidade - o "bife à Trindade" - que teve concorrência à altura no "bife à Jansen" servido na cervejaria do mesmo nome, fundada uns anos mais tarde, em 1870. A partir de 1880, a Fábrica Leão patrocinaria igualmente uma cervejaria de marca - a Leão - situada na rua 1º de Dezembro. Já no século XX, essa fábrica e a Companhia Portuguesa de Cervejas fundir-se-iam originando a Companhia Portugueza Germania, que mudaria o nome, em plena I Guerra, para Portugália. A cervejaria Portugália, na avenida Almirante Reis, a tiracolo da fábrica homónima (cujo património industrial e arquitectónico foi há uns anos completamente destruído para dar lugar a um investimento imobiliário... que não chegou a acontecer, deixando mais uma chaga urbana num bairro carenciado de chamarizes turísticos um dos quais poderia ter sido um verdadeiro museu da cerveja nas antigas instalações da SCC, fabricante da cerveja Sagres e empresa agregadora de muitas das antigas fábricas da cidade) seria inaugurada em 1925, mantendo-se aberta até ao presente.

Cervejaria Trindade no princípio do século XX
(Arquivo Municipal de Lisboa)
Inicialmente  - provavelmente por necessidade de afirmação e conquista de clientela aos restaurantes mais afamados - apresentaram-se as cervejarias como espaços de grande cuidado decorativo, frequentadas tanto pela burguesia endinheirada como por grupos de artistas e escritores que nelas deixaram marca e delas fizeram local de propaganda dos seus ideais artísticos e cívicos. Atente-se nestas palavras de 1958, presentes no "Manual do Tirador de Cerveja" editado pela SCC: "O agrado que o ambiente, onde um sequioso entra para se refrescar, lhe proporciona, reflecte-se, sensivelmente, no "apuro". Medite e Tirador neste problema. A decoração da casa, sóbria e repousante, exerce profunda influência no Público, muito embora nem sempre se tenha consciência disso. As cadeiras devem proporcionar um repouso convidativo à permanência, de altura simpática a pessoas de ambos s sexos, sem serem demasiado baixas. A altura das Mesas corresponderá à altura das Cadeiras, antes mais baixas do que incomodamente altas. Escolha-se, para o tampo, uma cor feliz, que faça realçar o colorido -tão atraente! - de um serviço impecável. A colaboração d um artista de bom gosto e treinado pode melhorar consideravelmente o destino comercia de um estabelecimento."

Empregados perfilados à porta da cervejaria Germânia
(Arquivo Municipal de Lisboa)
A evolução social e urbana, levou-as, no entanto, a cair numa indiferenciação melancólica, perdidas entre um negócio restaurativo imobilista preso a alguns pratos icónicos mas em perda de qualidade, incapazes de concorrer seriamente com as marisqueiras entretanto proliferadas e com cujo serviço se confundiam, decaindo para uma clientela de carácter popular e muito menor exigência gastronómica, igualmente presas ao duopólio que, durante décadas, dominou a quase totalidade do negócio cervejeiro, responsável pelo pouco conhecimento do produto que a maior parte dos consumidores tem, durante anos pouco atreitos a novas experiências e novos sabores.

Num recenseamento realizado em 1991, a Câmara Municipal de Lisboa identificava 101 cervejarias, 90 das quais de 3ª categoria, 9 de 2ª e 2 sem classificação... parco panorama para uma cidade que, 100 anos antes, se orgulhava das suas casas com espectáculos musicais, empregados vestidos a rigor e decoração cuidada...

No presente, muitas destas casas já não existirão, estando a Liberdade  num outro campeonato, onde imperam a qualidade do espaço e o cuidado posto na preparação e no serviço de sala.


Do ponto de vista gastronómico, é uma casa que apresenta maioritariamente os pratos típicos de uma marisqueira, adicionando-lhe pratos-bandeira da tradição lisboeta de pratos de peixe (como o arroz de lavagante ou os filetes de peixe) e confecções emblemáticas da tradição culinária mais popular (como o pica-pau). Não esquecendo a localização e o espaço onde está integrada, é clara a atenção dada à clientela turística, com a inclusão de propostas mais contemporâneas e cosmopolitas - como o sushi, o sashimi ou o ceviche - e o cuidado posto na elaboração da carta de sobremesas, com a "recomposição" de alguns doces emblemáticos. Comida de mão cheia, tanto na evocação como na execução, a aliar tradição e competência.

Casa com a cozinha aberta em contínuo, do meio-dia a madrugada, casa de ir ficando, entre um almoço de negócios e uma tarde de conversa e flânerie, um jantar de intimidades ou uma ceia após uma sessão na Cinemateca, casa que rompe com o paradigma... do tremoço.


Ceviche e Sushi

Sashimi

Arroz de lavagante

Filetes de Peixe-galo dourados...

... com arroz de tomate

Prego do lombo no pão

Pica-pau do lombo

Duo lisboeta de Arroz doce e Leite-creme

Mousse de cacau 70%

Ovos moles de Aveiro em crepe, laranja confitada e amêndoa caramelizada

Cervejaria Liberdade
Avenida da Liberdade 155, Lisboa
Tel.: 21 354 9411
Aberto - 2ª a Sab - 12:00 - 01:30 ; Dom - 12:00 - 00:00

NOTA: Sobre as cervejarias e outras histórias da cerveja ler "A Cerveja no Mundo e em Portugal" de Manuel Paquete, colares editora, 2003

Comentários

É uma boa notícia e espero que o conceito pegue. A Brasserie Flô também começou por ter um horário contínuo mas depois desistiu.

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