Cadernos de um Enófito (1) - ReEvolução


Antigamente, era fácil começar a falar do bloqueio do artista: era a indecisão do traço que tolhia o movimento, o início do primeiro risco, da primeira palavra, do primeiro desbaste da matéria. Ou o branco. Comecemos pelo branco, a côr que  nada continha (para os que usam a fotografia digital: no branco de 1s e 0s jaz tudo, exagerando, o photoshógrafo pode ser escultor, arrancando à tela amorfa a realidade - ou uma parte dela...) e onde, paciente, desesperada, mortificadamente, o criador deixava a recriação do seu mundo.

O branco.

Estou assim há meses, quando penso - e tento decidir - começar a escrever sobre vinho. Não que tenha pretenções aos galões de enófilo (ou crítico, especialista, provador) - apenas defendo que os dois caminhos (o do alimento e o da bebida) estão longe de ser paralelas à espera de se encontrarem no infinito, sendo antes duas vias entrelaçadas das quais tudo se tem a perder quando se pretenda separá-las, caminhando seguramente a pé coxinho por uma apenas.

Deixem-me escrever uma primeira enormidade (e que, espero, venha, com argumentos decentes, ver contestada): em Portugal, as castas autóctones originam vinhos que só consumidos à mesa (isto é, em conjunto com alimentos) conseguem demonstrar todas as suas qualidades (irei mais longe: nos vinhos tranquilos, a experiência de degustação a solo é menorizante).

Do meu ponto de vista - que é filho da minha experiência - mesmo apreciado em prova com todas as condições, pelos maiores especialistas, um vinho só parcialmente é avaliado, faltando-lhe a transformação em boca trazida pela combinação com os diversos elementos que compõem o prato com que está a ser harmonizado (ou emparelhado).

Obra de arte regional, esta carne cozida longamente em panela de ferro só tem a ganhar com a esclha adequada de um vinho acertado, obrigatoriamente, da mesma região
Neste país, infelizmente, tenho constatado que existem dois grupos que, voluntária ou distraidamente, raramente se encontram, misturam, comunicam: o dos gastrónomos (restauradores, cozinheiros, produtores, críticos, historiadores, jornalistas, bloggers, entusiastas, foodies, gourmets, e demais) e o dos enófilos (produtores, restauradores, escanções, enólogos, distribuidores, críticos, jornalistas, bloggers, estudiosos, divulgadores, entusiastas e demais). Para uns (há excepções, claro, vá lá...) o vinho é uma pomada que se sorve distraidamente enquanto se analisa o prato, se fala do chefe executivo ou se discute o produto; para outros, o alimento é aquilo que se vai trincando para contrariar a subida do álcool, enquanto se analisa o conteúdo do copo, se ouve o produtor ou se discorre sobre a evolução do terroir.




É uma pena que tanto conhecimento não seja transmitido para o lado de lá e, como o vinho e a comida, com as duas visões se construa uma eno-gastronomia mais forte, mais conhecedora, mais motor de evolução e desenvolvimento. Do que estão à espera?

Coxo, este naco ou impróprio, se mal combinado.
Um outro mundo, quando harmonizado, com vantagens acrescidas para o parceiro certo

Pratos e vinhos, vinhos com o prato certo, preparações regionais com produções regionais, deverão ser apreciadas, comentadas, discutidas, evoluídas, em conjunto - uma ReEvolução a que vos desafio a aderir.

Falando deste caminho-proposta de juntar os dois mundos que, por aqui, agora proponho, relevo para os dois co-fundadores desta paixão, peixes de duas marés há muito, um o produtor Joaquim Arnaud que, como poucos, junta teoria à prática e tanto produz no sector gastronómico como no sector vínico; outro, o Luís Gradíssimo que tanto mexeu na semente de desconforto que sentia ao assistir a este divórcio, que me empurrou para fora do burladero.

Prrriiiiiiiiii! Está iniciada a partida.

Comentários

Artur Hermenegildo disse…
Pois, estou contigo. Sempre defendi que os vinhos servem sobretudo para acompanharem comida, é esse o seu papel principal.

Há excepções claro. Mas quanto a mim só ao nível dos Grandes Vinhos do Mundo, que esses sim poderão eventualmente ser apreciados sozinhos com vantagem (mas como é uma área que praticamente não conheço, especulo mais do que confirmo).

Já o inverso não é verdadeiro. A comida poder perfeitamente ser apreciada e degustada com prazer com outros complementos líquidos - cerveja, sumos, bebidas fermentadas, vodka, saké, até água

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