Cadernos de um Enófito (2) - O Douro Superior


É o rio, claro. O rio instalado na base das encostas em vês aprofundados pela nossa pequenez de observadores, e pelo espanto perante o trabalho de gerações, penosamente criando os socalcos que suportam videiras.



O rio, agora liso como o mais pacífico dos espelhos, longe do seu histórico de horrores e desafios, fruto das barragens que o civilizaram e desta Primavera de esperança para os produtores.

O rio que nomeia a antiga província, a actual região vinícola, que perdeu para o Porto o apelido do vinho fortificado mas que agarrou o dos vinhos tranquilos que aqui nos trazem: Douro Superior.

Neste desafio de alturas que parte do nível fluvial para altitudes acima dos seiscentos metros, a temperatura é heterogénea e influenciada pela contenção do vale ou o despojamento do topo das montanhas. O solo é predominantemente traçado de xistos, línguas quebradas de castanhos baços, terras de poeiras que embaciam os verdes. Do planalto beirão, granítico, chegam ainda ecos, resquícios de outras heranças, acidezes, durezas.

A envolvente do vale do Douro

Temos assim clima - os nove meses de Inverno a que se seguem três de inferno, a que se juntam amplitudes térmicas diárias que ultrapassam com frequência, nos meses temperados, os 20ºC -, e solo como principais marcdores das uvas. Acresce a especificidade das castas autóctones (e elas não o são por acaso, antes fruto da selecção natural que a terra ditou e os homens quiseram), a personalidade das gentes, também elas moldadas por uma região rigorosa, de extremos, exigente mas recompensante.

Os rios Douro e Côa (à direita) vistos a partir do terraço do Museu do Côa

Um terroir com pleno direito a ciosa identidade, seguindo a definição que os franceses encontraram para explicar a diversidade dos seus vinhos, filhos das mesmas castas mas particularmente diferentes: uma região onde o clima, o solo, a geografia e a cultura têm características únicas e homogéneas, as quais se reflectem directamente nos vinhos nela produzidos.

Pocinho: vista do Douro a partir da antiga ponte ferroviária, arquitectura de ferro em total abandono e degradação acelerada.

Região de natureza pródiga, a permitir lazer suficiente aos seus habitantes para, nas lajes do vale do rio Côa, traduzir a sua admiração, orgulho, veneração em recriações do mundo que, no presente, a muitos deixa em silencioso observar (e a alguns a alarve vontade de acrescentar).

Pormenor dos traçados encontrados na rocha no Fariseu, o sítio mais importante no vale do Côa, onde foi  possível datar com certeza os níveis arqueológicos que selavam esta rocha.  Aqui se encontra o maior conjunto de arte sobre suporte móvel conhecido no território português directamente associado a vestígios de fauna do Paleolítico superior (reconstituição para o museu dos vestígios encontrados na camada datada de 12000 anos)

Museu do Côa: tradução contemporânea de uma das figuras traçadas na rocha

Sentimentos que pressinto agora, nos diversos produtores que expõem as suas criações no Festival de Vinho do Douro Superior, que visito.

É o omnipresente Vinho do Porto, durante anos o único com carta de alforria para afirmar a sua identidade e qualidade. São também -  cada vez em maior número, cada vez com maior qualidade, cada vez mais assertivos e distintivos - os vinhos tranquilos, brancos, tintos ou rosados, com a distinção de uma DOP (denominação de origem protegida) "Douro", sub-região "Douro Superior".

Touriga Franca, Touriga Nacional, Tinta Roriz, Tinto Cão, Tinta Barroca, Tinta Amarela, Bastardo, Sousão, são algumas das principais castas tintas, a que se juntam, nas brancas, entre outras, a Códega do Larinho, Gouveio, Malvasia Fina, Rabigato (Estreito), Viosinho e que originam conteúdos de aromas marcados, composta acidez, tessitura de sabores. No flavor - essa palavra portuguesa caída em desuso e que nos fala de gosto e sabor - um desafio, um desconforto na nossa pequena segurança.

Vinhos tranquilos pouco tranquilos, que se mostram desaconselháveis a personagem de novela distraída que procura molhar os lábios em pose preocupada entre dois dramas ou dois amores. Vinhos que exigem atenção e a percepção de que são principalmente gastronómicos ou seja, que vivem para e da dádiva de serem conjugados com o alimento certo. Vinhos que incrementam os sabores comidos e com eles se completam, revelam os últimos segredos, atingem um estado adulto.

E sabores há-os profundos, da terra, a começar pelo pão de trigo, centeio ou de milho, o qual com a Azeitona de Conserva Negrinha de Freixo DOP  (variedade Negrinha que pela fraca aptidão para azeite é integralmente apanhada para conservação) constitui par ideal para os vinhos mais jovens.

Expositor no Festival do Vinho do Douro Superior

Pão que se molha com gosto no azeite distinto, o Azeite de Trás-os-Montes DOP , produzido a partir das variedades de azeitona Verdeal transmontana, Madural, Cobrançosa e Cordovil. Virgem e extra-virgem, de baixa acidez, cor amarelo-esverdeada, de aroma e sabor oficiais a fruto fresco, com referências, para os mais atentos, à amêndoa que é característica da zona. O que beberiam com este pão, assim gordurento de ouro líquido, a embeber língua e papilas? Eventualmente nada, apenas a expectativa de uma magnífica refeição e a antevisão dos sabores da vinha...

Das entradas - ou dos finais... ou ainda das tardes de conversa ou dos momentos de solidão a ver a paisagem, emulando os gestos de pastores - registo para o Queijo Terrincho DOC , de sabor e aroma suaves ou fortes conforme a sua idade e tempo de cura.

A raça que produz o leite que o origina, a ovelha Churra da Terra Quente (Terrincha, na denominação local), é fonte do protegido Borrego Terrincho DOP de cor muito clara, tenra, com gordura quase ausente e ainda com sabor a leite e que, por exemplo, assado lentamente no forno, enche uma tarde de Domingo, a pedir a presença dos tintos de acidez e taninos menos marcantes, de carácter mais redondo e influência da madeira.

Ainda a caça - coelho, lebre, perdiz - que continua a existir por montes e vales.

As raças bovinas DOC, muito próximas - a mirandesa e a maronesa - a sugerir uma posta tratada sobre brasas (real e figurativamente que se quer a carne saborosa e mal passada) e realçada por um tinto estruturado, robusto, os melhores exemplares que a região produzir.

O porco bísaro de onde tudo se aproveita e que tanto oferecerá os enchidos dos vizinhos transmontanos quanto os grelhados que aqui são comuns: ricos em gordura e em sabor, a pedir a mesma complexidade e acidez suficiente para contrabalançar aquela. Arrisco (e estou mesmo sem tapete), para os mais pertinentes na gordura, os que incluam o Sousão na composição.

Aos brancos ficam reservados os peixes de rio cujo sabor delicado pedirá a mesma delicadeza líquida, toques cítricos e subtil mineralidade se grelhados.

Da doçaria, fundada em parte sobre as magníficas amêndoas e no lusitaníssimo para ovos&açúcar, referência para os doces de amêndoa, as súplicas, as lampreias de ovos, os "coscorões", os folares e as bolas toscas, livradas e picadas.  Que tal um Porto branco, ácido a cruzar a doçura acentuada?

As amêndoas da região num expositor no Festival do Vinho do Douro Superior

Um mundo de mesas e gargalhadas, conversas e olhares...

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