Gastronomia portuguesa: o fim da História?


Há vinte e cinco anos, um pensador americano publicou um livro cujo título sobreviveu muito mais que a teoria nele defendida: O Fim da História e o Último Homem.  A tese apresentada visava celebrar,  face à derrocada dos regimes socialistas da Europa de Leste, a vitória da economia capitalista e dos sociedades democráticas e liberais ocidentais. Arrogante como só os maus vencedores sabem ser, iludido como só os inebriados pelos festejos temporários da vitória conseguem ficar, o livro associava a História à pequena história (no contexto do Tempo) da luta política e social entre duas ideologias transitórias. Foi uma tentativa que a passagem dos anos, a evolução das sociedades, a velocidade das mudanças globais, a proximidade da informação contrariaram: se o presente anuncia é precisamente do retorno dessa História e o ressurgimento de ideologias antagónicas que, suportadas pelo agravamento das disparidades sociais, a perda de direitos e regalias, a exploração do homem pelo homem, procuram retomar a propostas de respostas às ansiedades de justiça, equidade e bem-estar que, no passado, foram a sua génese.

(Já lá chegamos à gastronomia)

Sim, a notícia da morte da História foi, de alguma forma, exagerada.

Isso não quer dizer que não estejamos num tempo de progressivo apagamento da História, da sua morte no conhecimento dos cidadãos (e, consequentemente, no seu dia-a-dia).

Reflictam comigo: "Tentem imaginar o que seria uma sociedade em que ninguém soubesse o que quer que fosse de História. Eis algo que a imaginação tem dificuldade em aceitar, porque só através do conhecimento da sua história consegue uma sociedade conhecer-se a si própria. Um ser humano sem memória e auto-conhecimento é um ser à deriva, logo uma sociedade sem memória (ou, mais correctamente, sem recordação) e auto-conhecimento seria uma sociedade à deriva." (Arthur Marwick)

Poderemos recusar este cenário em Portugal? Não terão o progressivo apagamento, nos currículos escolares, da História, da noção de progressão, de evolução, a preponderância dada às Ciências Exactas, a imposição mediática do imediato, do fogacho, do novo (a que, provavelmente, não será estranha a "adolescentização" da sociedade) levado a este crescente estado de indiferença pelo destino dos que nos procederam, pelos resultados das acções que empreenderam e deste modo, para o bem e para o mal nos prepararam?

(Vamos então à gastronomia)

Como é que este cenário se traduz na nossa gastronomia? Numa cacofonia de influências que, espelhando a tradição cosmopolita de Lisboa, espalham oferta nos, cada vez mais multiplicados, restaurantes da capital. Influências que, maioritariamente, não são adições (técnicas ou de ingredientes) ao corpo culinário tradicional, antes substituições, ocupações de um vazio (criativo, de conhecimento, afectivo).



Como responderiam seriamente à pergunta feita por um estrangeiro; onde posso ir descobrir a vossa verdadeira comida? Que restaurantes recomendariam a um visitante que quisesse descobrir Lisboa através da sua culinária? Que restaurantes  - de "fine dining", de médios preços - para além dos populares (cuja "guerra" é a da relação produtos razoáveis/baixo preço), podem vocês sugerir que, para além de originais, para além do ultra-citado "produto", são herdeiros de uma memória, de uma tradição, de um modo histórico de celebrar os frutos da terra e do mar? Que não são a enésima versão internacional de uma cozinha de ruptura, de um rasgo de génio, de um mediatizado prato?



É possível sermos "internacionais" mantendo-nos regionais?

Esta é uma encruzilhada que, há alguns anos, perpassou o mundo dos vinhos - deviríamos recorrer às castas internacionais para melhor vender a nossa produção ou deveríamos teimosa, perseverante e conscientemente, seguir a rota menos viajada da identidade nacional e da diferença? (Depois de vários anos de multiplicação de castas exógenas e da valorização de monocastas de nome reconhecível, oiço com satisfação cada vez mais vozes a defenderem o interesse de se trabalhar maioritariamente com castas nacionais)

Neste presente de abertura em massa de projectos, muitos com muito pouca consistência restaurativa empresarial, em que o parecer é totalmente prevalecente sobre o ser, em que a surpresa e o espanto enchem os olhos e às páginas digitais, haverá espaço para o que foi e assim - mesmo sem o sabermos, mesmo sem o reconhecermos - nos fez?

Estaremos interessados em nos continuarmos, em continuar a evoluir a tradição que herdámos ou preferimos continuar uma tradição alheia, indiferentes à quebra de cultura, à desadequação desses modos face aos nossos modos, ao nosso território, à nossa sensibilidade?

Não é este, na realidade, o fim da História?

Comentários

Paulina disse…
Boas questões e muito pertinentes.

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