O lisboeta de Bourdain



Assisto aos mais recentes episódios de Parts Unknown e mais uma vez constato a absoluta raridade do gesto gastronómico que o seu autor protagonizava: apesar do sucesso aclamatório que o transformara em moda e corria o risco de o anular, Bourdain usava a gastronomia como ferramenta de descoberta, como meio e não um fim - a mesa enquanto desembaraçador de inibições, o alimento enquanto partilha, início de conversa, a cozinha enquanto espelho da relação dos locais com o seu mundo, a sua natureza, a sua circunstância.

Como o sexo, toda a vivência gastronómica deveria ser assim: não um prazer onanista, antes uma dádiva e um descobrir do outro.

Falar de gastronomia, estudá-la, partilhá-la, deveria ser igualmente essa polivisionada e abrangente forma de, olhando o outro, conhecer-mo-nos melhor.

Estou encavalitado numa cadeira recente, a uma mesa de tampo antigo, enquanto provo novidades. Do lado de fora da janela quase panorâmica, uma rua que os carros não param de descer, com um lisboeta que não para de a subir, em apelos vagos de solidariedade na compra de uma revista.

Junto aos gestos quase maquinais da minha mão a trazer-me mignardises os da inclinação do seu corpo em direcção à janela de cada carro. Movimentos antagónicos, inversamente simétricos no propósito e na necessidade mas, no seu antagonismo, manifestações de um silêncio: dialogo comigo mesmo, sem ruído público e a sua voz, porventura suplicante, porventura orgulhosa, não me chega, imposto que está o vidro como barreira entre os dois mundos. Eis-nos dois habitantes de aquário, peças raras do bulício anónimo de uma cidade que o mundo rola e avança apesar de nós, à revelia de nós.

Apesar deste texto, somos não-existências mútuas. E neste mundo que se extasia perante o flavour inusitado de uma nova colheita, o twist numa apresentação ou a perfeição de uma combinação, não posso deixar de pensar no Bourdain, na curiosidade do Bourdain, mas também na sua solidão e na tristeza que dele se deve ter apoderado pela constatação de que, apesar do interesse e da vontade de amar, da mesa e dos risos, da partilha e dos belos textos, das belas imagens, também ele se encontraria encurraladamente só do lado de lá do vidro.

Comentários

Duartecalf disse…
Ótima descrição. Percebi logo que janela é essa!
Abraço
Pedro Cruz Gomes disse…
:-) Obrigado, Duarte. Abraço!

No último ano..