Dois títulos fundamentais

  

Ai que prazer
Não cumprir um dever, 
Ter um livro para ler 
E não o fazer! 
Ler é maçada, Estudar é nada. 
O sol doira 
Sem literatura.
Sou, por via deste feito irritado que herdei (não de menos ou mais pouco conhecidos parentes, antes da misteriosa combinação de genes que me formou e mais uns pozinhos da vivência adolescente que me semi-obrigaram a ter), muito pouco avesso a vassalagens. Sejam elas a pretensos salvadores (e, private joke oblige, também a caetanos e lourenços) prestes a franquear o panteão dos vivos ou já frequentadores das Santa Engrácia e demais.

Mas.

Abro excepções para quem me iluminou os dias preto-e-branco a que assisti com frequência, para quem criou luz na minha ignorante escuridão, para quem, sem me conhecer, insistiu em piscar-me um olhar cúmplice. Não há teimosia que me reste: cito e recito, publicito e incito.

O Nininho - este Nininho que encabeça o texto - veio mesmo ajeitar-se ao começo de prosa que me provocaram duas das mais recentes compras em alfarrabistas da cidade (fotos a seguir). Ambos os autores adoptaram este prazer de não cumprir um dever, assim como a grande parte do português gastronómico mundo se aplica esta culpa de não ler o necessário, o imprescindível, o indicado. É uma maçada - um ferro!, como diriam os oitocentistas habitantes da Lisboa elegante-centro-do-mundo - ler e para que serve o estudo num espaço e num tempo em que a ignorância influencia (e de que maneira!) a espuma dos dias?

Deixemos os lamentos e passemos ao importante:

Na rarefeita atmosfera da literatura gastronómica portuguesa, dois livros iluminam o percurso nacional: "Volúpia", de Albino Forjaz de Sampaio, publicado em 1940 e "Da Mão à Boca" , de Roby Amorim, publicado em 1987. Não são filhos únicos - entre outros (raros) o Virgílio Nogueiro Gomes, no presente, é um bom exemplo dessa arte de abordar a arte evitando receitas, o José Quitério deixou-nos 2 livros-recolha dos seus artigos no Expresso, o grande Augusto Gomes, do seu amado arquipélago açoriano presenteou-nos com três magníficas abordagens às cozinhas específicas de S. Miguel, Terceira e Santa Maria (a propósito: se alguém souber de um exemplar disponível deste último, muito agradeço a informação) - mas, pelo menos para mim, são, apesar das limitações e de alguns pecados, de leitura imprescindível para quem tão disponível para a gastronomia nacional se diz estar.




Tivesse sido Roby Amorim mais completo na fundamentação das suas afirmações seria o seu livro compêndio universitário obrigatório no que ao estudo da história da alimentação em Portugal diz respeito. Como exemplo, leia-se o que escreveu cobre o mal-afamado Malcozinhado:
"Seriam precisamente esses negros a criar o que talvez se possa chamar o primeiro self-service da Europa, o "Malcozinhado", não um restaurante, como o nome parece indicar, mas um "labirinto de sujas, imundas tabernas, montadas em toscas cabanas de madeira, mal cobertas de colmo, pegajosas de fumo e de azeite".

Situava-se paradoxalmente, mesmo por trás dos Paços Reais, na Ribeira Velha, entre o Terreiro do Paço e o actual Cais do Sodré. Os clientes eram, principalmente, os operários da construção naval, que ali mesmo se construiam as naus e caravelas que descobriram o mundo.

O "Malcozinhado" fornecia apenas peixe frito. O pão trazia-se de casa e o vinho ia-se buscar à rua do Cata-que-farás (a actual rua do Alecrim), recheada de tabernas que a vicentina Maria Parda nomeia quase uma a uma, a demonstrar que o pai do teatro português talvez fosse um cliente relativamente assíduo.

Cadeiras ou mesas era coisa que não havia. Os clientes sentavam-se numa pedra de acaso, num tronco do futuro cavername de uma caravela, no areal seco da maré-vasa.

" Os indivíduos empregados na afogueadora tarefa de preparar o peixe, enquanto o freguês esperava, eram quase sempre pretos e pretas, de carnes ao léu, enfarruscados de fumo, suor e carvão, para mais acentuar a nota nauseabunda desses lugares" cujos maus-cheiros e piores fumos chegavam para perturbar as solenes reuniões da corte.

O "Malcozinhado", o  mais completo estendal da pobreza de grande parte da população de Lisboa, que viveu o período de ouro da história portuguesa, foi, sem dúvida, a melhor mesa da gente humilde que mourejava na Ribeira de Lisboa e com tanta importância e significadoo que resistiu a todas as modernizações, mantendo-se vivo ao longo de três séculos, desde o XVI ao XIX."

Já no Volúpia, mistura Forjaz de Sampaio histórias e História, memórias pessoais e oficiais, das "Cozinhas de todo o Mundo" aos "Primeiros Livros de cozinha europeus", da erudita dupla "Gastronomia e Literatura" ao prosaico "António das Caldeiradas". Notas de um longínquo mundo passado mas também de um pretérito que ainda subsistia na sua memória e que, para nossa fortuna - se entreteve a descrever. Espantoso é que, como em Eça, a realidade descrita contrarie o Camões de "não se muda já como soía": leia-se, por exemplo, o seu texto sobre os pasteis de bacalhau:

"A cidade hoje já não é a que foi no meu tempo, o que é natural. Mas o pior é que mudou com tal ímpeto que tudo o que era pitoresco vai de gangão desatinado para o esquecimento com passagem pelo camartelo demolidor, e assim já de todo acabaram os carvoeiros onde se bebia o melhor vinho, por tijelas brancas vidradas, e havia quási sempre, para fazer boca, pasteis de bacalhau e uma velha a assar castanhas. Acabaram os carvoeiros substituídos por estabelecimentos de venda de carvão a retalho, revestidos de azulejo e tão penteadinhos que até a gente tem vergonha de lá entrar. (...)

Pois acabaram os carvoeiros e dos pasteis de bacalhau parece que já se perdeu a receita, que já o que por aí se vende com aquele nome são uns bolos loiros e desenxabidos que em nada lembram os que por gosto se comiam nesses velhos tempos. E tão solidários que não se comia um sem que uma turma o seguisse. Uma assemblea de pasteis de bacalhau bichanando delícias à tripa, sobre e sob um belo vinhito de carvoeiro, que tinham dedo para o escolher, os marotos. Que rica coisa isso era!

Lembra-vos alguma coisa esta Lisboa? E pressentem no desconforto do autor o desconforto de muitos perante a oferta turística contemporânea?

E quem na História não creia se curve perante a triste repetição da mesma...

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No último ano..