Gastroescritas #2 - A Fisiologia do Sabor, Brillat Savarin

Brillat-Savarin não é propriamente o francês mais conhecido do mundo - oh, há o Sarkô e a Sarkó, o Sartre e a Simone, o Zizou e a cabeçada que são tão mais badalados!... - mas, seguramente que qualquer europeu com uma média cultura já ouviu, citou ou usou em proveito próprio pelo menos um dos seus gastronómicos aforismos, "Diz-me o que comes, dir-te-ei quem tu és".


Brillat-Savarin foi o que antigamente se soía chamar um bem-pensante. Numa época em que se discorria sobre tudo e mais alguma coisa menos sobre alimentação - essa necessidade do físico que tão bem contrariava a elevação do espírito... - eis que este militante cidadão (foi nomeado deputado à Assembleia Nacional Constituinte), depois de ter discorrido (e publicado) sobre muita coisa, decidiu, no final da sua vida e anonimamente dar à estampa uma colecção de meditações - aforísticas, axiomáticas, muitas delas, mas não menos adoptadas a maioria até aos dias de hoje, sobre aquilo que considerava uma arte: a gastronomia.

A Physiologie du Gout é o texto fundador não só da literatura gastrónoma como da própria gastronomia enquanto tema. Escrever sobre alimentação e não sobre culinária (sendo esta o conjunto de técnicas de preparação dos alimentos), sobre os gostos do sabor, dos modos, da sensualidade e do prazer das preparações culinárias, tudo isso teve o seu início com Savarin.

É um prazer ouvir os ecos de um tempo mais langoroso e requintado (para alguns...) que se escapam por entre as palavras do autor, para além do curioso de algumas posições, do assertivo de coisas que hoje em dia parecem óbvias ou da polémica que algumas outras agora invocam.

Existe edição em português, com prefácio de Alfredo Saramago (via Occidentalis?) ainda que eu recomenda - para os nascidos antes do abandono da militância galicista - a leitura na língua original.

É uma espécie de saborear dois em um. Altamente recomendável.

(Como contraponto, sugiro a leitura do Gastronomia Molecular, já aqui falado e a análise que o autor faz de algumas das afirmações de Savarin.)

O Projecto Gutenberg tem-no disponível para download aqui:  http://www.gutenberg.org/etext/22741

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