Paris, 2011 #4 - Belleville, modo de emprego

É também um belo - e muito explorado - cartão postal, mas Paris é, antes de tudo, um organismo bem vivo. Uma cidade, uma metrópole, ex-capital de Império, ex-centro do mundo civilizado e cultural que ainda mantém o poder centrípeto do passado, atraindo gente de múltiplas culturas.

Como em Lisboa, como em Londres, como em muitos outros lados, as populações imigrantes tendem a agrupar-se de acordo com a sua origem.

Belleville é, a par da Chinatown do 13º Bairro, um local de grande concentração de populações orientais, tendo estas sucedido às vagas de imigrantes polacos, arménios, judeus da Europa central, judeus orientais, magrebinos, que nele encontraram abrigo ao longo do século XX e que, a par da classe operária que sempre o habitou, lhe moldaram o carácter e a ambiência.

Belleville nos anos 50,
imortalizada na visão de Willy Ronis
(fonte: Belleville Belleville)
Local de habitantes de poucos recursos, logo de construções pobres e mal mantidas, foi palco, a partir dos anos sessenta, de várias operações municipais de recuperação urbana, que espelham bem a evolução das teorias de renovação urbana. Alguns quarteirões abrigam edifícios de grande porte e anónima arquitectura. Noutros, recuperaram-se edifícios e mantiveram-se ruelas, apostando-se na preservação da imagem.

O bairro é um cadinho de culturas, do espírito comunitário que subsistiu,


à contemporânea intervenção de graffiters,





da forte presença oriental,




à comunidade artística urbana,



das pequenas lojas especializadas de bairro,


aos supermercados de produtos globais, com especial incidência nos produtos asiáticos.

Paris Store, um supermercado "asiático"
(cortesia Googlemaps.com)
É, entre muitas outras, um local para novas descobertas gastronómicas asiáticas. O restaurante Dong Huong, é um considerado localmente bom representante da gastronomia vietnamita.



De gastronomia vietnamita só conhecia a teoria, ensinada por Charmaine Solomon: 

"O arroz e a sopa são os elementos de base duma refeição vietnamita. Algumas vezes a refeição consiste unicamente numa sopa, mas uma sopa única muito substancial. (...) os vietnamitas pararão a qualquer hora do dia ou da noite para comer um pho, delicada sopa de carne, muito apreciada pelos ocidentais. Uma cozedura longa fornece um caldo nutritivo que se verte sobre legumes crus, de massa de arroz cozida e de lâminas de carne de vaca cruas que o caldo coze instantaneamente.

O arroz é cozido sem sal, por absorção. Os grãos devem ficar firmes e bem separados. (...)

No Vietname come-se frango e outros galináceos, peixe, vaca e porco mas nunca carneiro. A vaca é uma carne de luxo, uma vez que o animal é criado para trabalhar. A carne de porco é mais corrente. (...)

Os vietnamitas gostam muito de saladas. Misturas simples de carne de frango cozida e couve picadas, transformam-se em pratos exóticos com a adição de folhas frescas de hortelã-pimenta e de coentro, picadas, e do omnipresente molho de nuoc mam (molho de peixe) ou nuoc cham.

Na cozinha vietnamita é largo o uso de legumes e frutos crus e os alimentos são mais frequentemente cozidos em vapor do que salteados (...).

Come-se em tigelas com pauzinhos e todos os pratos são servidos ao mesmo tempo.

Não se come sobremesa depois de uma refeição. (...) Os vietnamitas confeccionam excelentes frutos confitados, entre eles um melão de Inverno que necessita três dias de preparação!" 
(in L'Art Culinaire Asiatique)


Armado deste conhecimento (deixado todo em Lisboa, devo acrescentar), provei esta sopa de caranguejo e camarão - uma espécie de pho de frutos do mar - canonicamente acompanhada das malaguetas, do limão, da hortelã e dos rebentos de soja e do molho (que me pareceu ser o nuoc cham) para molhar os pedaços de queijo de soja.

Caldo apaladado, com cebola crua e os pedaços de carne de caranguejo desfiados, bem gorduroso, com o sumo de limão a fazer maravilhas para o contrariar. A hortelã, colocada de acordo com o gosto do comensal, também tem um papel importante na composição de sabores. Percebi o porquê da sua popularidade.

T6 - Bun rieu
(Soupe du nord Vietnam aux crabes et crevettes émiettés)


 As almôndegas de porco também caíram bem, preparadas com a carne moida e não picada, acompanhadas com massa de arroz, legumes crus e o molho - seria mesmo o canónico nuoc leo, de arroz e feijão de soja? (não sei mas era mesmo bom!).

B7 - Nem nuong
(Boulettes de porc grillés avec galettes de riz)
Finalmente uma maldade para neófitos, tentar fazer pacotinhos de massa, legumes e porco em folhas de arroz prontas a rasgarem-se ao primeiro toque desajeitado, para depois os temperar no molho adjacente. Foi divertido... e saboroso.

B1 - Bun cha heo nuong
(Porc coupé, salade, vermicelles et galettes de riz)



Chá de jasmim para acompanhar, servido num bule... bem usado.



Saímos confortados e com pena de, por Lisboa, não existir nenhum restaurante vietnamita. É que saberia mesmo bem, nestes dias encanitados de frio e cinzento, uma pausa para reganhar cores com um pho fervente e aromático.

Para saber mais, ler esta série de artigos; seguir e ler o resto, se lhe interessar algo mais do que a superfície da cidade.


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