Ceias com tema dentro (I)- Ópera

"Ópera". 

Ópera? Opera.

Variedade na abordagem não falta, há títulos, enredos, motivos, compositores, divas, maestros (tão divas quanto as primeiras), tenores pantagruélicos, e tanta, tanta sugestão para desenvolver.

De imediato, as receitas consagradas - tournedós Rossini, pêssegos Melba... (de acesso fácil num livro que as concentra). 

Será mais divertido inventar, criando associações de associações, misturando referências, acrescentando assim ao prato a provocação da descoberta. Maçãs perfuradas por setas de canela (Guilherme Tell?), compota de fruta da época com queijo (Romeu e Julieta ? ou Tristão e Isolda se o queijo fôr alemão?).  Ou, em desespero de causa, evocar Mozart, fazer qualquer coisa... boa e dizer que assim o fazem todas.

Há ainda os trocadilhos: paté de Figaro é o meu favorito (por causa do prato, claro) - e esse é irresistível (paté será, desta vez acrescentado de meia dúzia de fígaros (hum... preocupante... figos!) que encontrei à venda num restaurante perdido nas traseiras de Alverca que oferece umas magníficas peças de vitela para comer na pedra... tergiverso). 

Aproveito uma receita de sifão ("Tout Siphons", Jean-Charles Karmann, Ed. de La Martinière) para elaborar uma Sangria Toreador (Libiamo! diria, se não fora acusarem-me de alzheimerismo musical) para início do apaziguamento. Uma calda de vinho do Porto, cascas de laranja e limão, açúcar, gengibre e canela, coada e repousada no frigórífico. 


Um corpo de maçã, laranja, framboesas, vinho tinto, Porto, açúcar e algo gaseificado pelo frisante, marinados pelo menos 1 hora. 


Na mesa, semi-cheio o copo com a fruta e seu líquido, o espectáculo com preenchimento pela espuma. Melhor abertura não há.


Depois as coisas entraram em democracia popular criativa.

Sopa de peixe que as divas de antanho tanto prezavam tanto pelo aveludar da voz quanto pela massa corporal que ajudava a desenvolver (si non e vero... e Verdi?) Um caldo aromático feito com as partes da pescada sobrantes depois de lhe retirados os filetes, engrossado com maisena, perfumado com ervas (cebolinho, aneto), surpreendido com ananás (! - foi a mãozinha da Kiri te Kanawa e a sugestão do Sudoeste Asiático que é próximo da sua origem?), complementado por fiapos do peixe.


Gritos de bravo!, chamadas ao palco, pedidos de bis!.

Os filetes sobrantes, passados por ovo e pão ralado, fritos (ou é fritados? Malditas modernices que me baralham a gramática) em óleo bem quente, para tomarem côr rapidamente e não serem agredidos por cozedura em excesso. Com um "dip" que serviu de contraponto, feito singelamente de tomate e coentros, um pouco de sal. Surpreendente, mesmo para o cozinheiro.


Falando em tomate, inspirados na sugestão da Miúda, uns chucha "enrobés" em massa quebrada, recheados com o paté e postos num forno muito pouco colaborante, mas que, depois de maestro e orquestra estudarem bem a partitura, serão um sucesso em temporadas vindouras.


Um risonho rosbife, de interior rosado e cenho bem tostado, homenagem ao Rossini porque tournedós para uma mesa cheia é uma piração, maior piração que todas as bufferie que o homem escreveu.


Uma empada de carne a emular as empadas do Rossini (muito rossiniano se tornou o jantar!). Deliciosa, mais bravos! e O Autor!


Os figos. Em calda, à espera da Travia que no frio se fazia cara, a homenagem possível à ópera portuguesa, com os nacionais amantes - Pedro e Inês (Ruy Coelho)



Por fim, uma tarte de maçã, já não sei porquê, mas não tenho dúvidas que seria adorada por Rossini, esse folgazão que abandonou a escrita aos 37 anos para se dedicar de alma e coração à mui nobre e artística actividade que a todos acompanha e que se denomina cozinhar&comer.


Pequeno complemente de gourmandise: macarons que também os há por cá, tão diversos e tão presentes quanto a crise.


E assim foi a noite. Cheia de música e bons momentos. Brindemos a isso enquanto não nos pesa em definitivo a agrura.

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