Ícones?

Os posts são como as cerejas: atrás de um vem outro, a partir do tema lançado por alguém, outro alguém o desenvolve e depois mais outro o comenta e achega... enfim, uma rede que se vai formando de hiperligações que se enriquece de conteúdos a cada momento de publicação.

Lendo, como sempre leio, a Alexandra Prado Coelho, revejo-me na polémica que lança, a partir da campanha Prove Portugal e da escolha do PASTEL DE NATA (o uso de maiúsculas já faz parte da minha contribuição para a mesma) como um dos cinco ícones a promover.

Confronta-nos com duas visões quase opostas: a de José Bento dos Santos, presidente da Academia Portuguesa de Gastronomia e principal responsável pela escolha; a de Ana Soeiro, de quem aqui já falei e, para mim, uma das mais notáveis defensoras da cultura gastronómica nacional. O primeiro, com o seu pragmatismo de engenheiro, defende a concentração da atenção em poucos produtos, preferindo construir ícones a dispersar potenciais alvos com a multiplicidade de produtos de qualidade por cá produzidos; a segunda, defende uma aproximação pela exclusividade dos produtos, ou seja, o enfoque naqueles apenas encontráveis no país (referindo, por exemplo, a excelência e exclusividade dos dosces conventuais).

O post gerou alguns comentários interessantes, alguns acabando por involuntariamente defender a posição que procuravam atacar.

Custa-me que se diminua a importância dos doces conventuais face ao pastel de nata com argumentos baseados no excesso (para os não portugueses) de ovos ou açúcar, quando são precisamente estes dois ingredientes que constituem o essencial do creme do pastel... para não falar da "brutalidade" de gordura incluída na massa.

Apostar num nome poderá ter a sua vantagem em termos de visibilidade - ganha-se uma buzz-food - mas servirá para garantir a qualidade desse produto? Eu já comi pasteis de nata pavorosos - tenho pena dos turistas que lhes ferrarem o dente convencidos que estão a degustar o melhor prato português (aliás, fico com pena de nós pela imagem que "aquela coisa" nos dará). Não faltará - porventura previamente - a definição das regras básicas do pastel de nata, melhor, a criação de uma classificação nacional de PGP (Produto Genuino Português) que garantisse essa qualidade mínima?

Percebo o pragmatismo (afinal, parece que também sou engenheiro) e a necessidade de eficácia a curto prazo que os tempos não estão de feição para planos a vinte anos. Mas custa-me que esta "leveza" seja patrocinada pela entidade que deveria ser o Olimpo da Gastronomia Portuguesa, sendo posição mais de publicitário do que gastrónomo.

Apresentar, como li, a pizza como exemplo de (independentemente da origem, constituição ou qualidade) produto italiano e, como tal, embaixador da sua gastronomia e do país parece-me um argumento de dois bicos: a pizza também está associada à fast food, à comida de muita caloria e pouca qualidade, em suma à trash food que gostaríamos de ver erradicada dos nossos hábitos e das nossas mesas - é por aí que queremos ver o pastel de nata?

Por outro lado, defender tudo e todos, com preocupação única na genuinidade e na qualidade de produção, poderá não ser suficiente para a criação de um mercado com massa crítica suficiente para a sustentabilidade e desenvolvimento da produção.

Em que ficamos, afinal? Cada macaco no seu galho, talvez a melhor resposta a dar, uns a defender, outros a promover...

Entretanto, o pastel de nata já ganhou carta de alforria e ei-lo, a percorrer o mundo, esquecido de subsídios ou patrocínios:

Comentários

Anónimo disse…
Mandar esses mesmos turistas para a pastelaria Carcassone, na Avenida da Igreja, em Lisboa é sucesso garantido. E não, ao contrário dos de Belém, não estão quentes, para parecerem bons.
E não, não sou parte interessada.
M.A.B.

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