Px em Lx 2014 (IV) - Produttore, traditore

Peixe em Lisboa. 1º Simpósio Sangue na Guelra: "Os Produtores e os Produtos".



Das quase três horas de apresentação das experiências dos vários convidados, começo por realçar a insustentável leveza de algumas afirmações utilizadas na defesa de posicionamentos gastronómicos ou alimentares

Reclamar para si "uma agenda" contra a agricultura "massificada", sem uma referência ou consideração sobre os benefícios para a população de muitos países que a disponibilização de alimentos que essa industrialização permitiu, é demonstrativo de uma ignorância história que fica mal a quem toma o palco e a palavra. Publicitar a agricultura biológica ou os produtos das pequenas produções de um modo que, implicitamente, os eleva a únicas opções aceitáveis, é esquecer que o custo de produção dos mesmos - ou os preços com que são oferecidos - são proibitivos para a maioria das populações. Elencar as virtudes - que existem e são, naturalmente, apetecíveis - dos produtos cultivados de uma forma "natural" omitindo os defeitos e deixando de referir os perigos - que os há - é, no mínimo, pouco sério.

Leonardo Pereira (Sous Chef de produto Noma)

Historicamente, a massificação da produção agrícola foi resultado de uma necessidade evidente - a da alimentação da crescente população mundial. Sendo as áreas de produção finitas e a mão de obra limitada, a solução passou pela melhoria da rentabilidade, quer através da capacidade resistente das plantas aos ataques naturais, quer através da capacidade dos solos, quer ainda através da mecanização das alfaias. Por mais idílica que pareça uma pequena exploração, em equilíbrio com os ritmos naturais, sem máquinas nem produtos químicos, ela não deixará de ser um anacronismo global e uma excepção exótica, possível apenas nos limites superior e inferior das sociedades, onde a sobrevivência não é um tema ou é o único tema. Se é certo que a cupidez do lucro levou e levará a excessos que, a não serem controlados, exaurirão terrenos hoje produtivos, destruirão florestas e outros habitats naturais, não é menos certo que os métodos artesanais não chegarão para alimentar os mais de 7,1 mil milhões de seres humanos que, no presente, habitam este planeta.

Qualitativamente, nem sempre é verdadeira a noção de que um produto "natural" tem maior qualidade do que um produto oriundo de uma produção "industrializada". Ao exemplo das frutas de produção massificada, sem sabor e fora de época, que tanto nos desencorajam, pode contrapor-se o exemplo da melhor qualidade de produtos, como as ervilhas, preservados a temperaturas negativas menos de uma hora após a sua colheita face a produtos frescos vendidos 1, 2 dias depois da colheita.

Sanitariamente, não basta a ausência de tratamentos químicos ou o uso de sementes tradicionais para garantir um produto acima de qualquer suspeita - é perigosa a moda das quintinhas "naturais" que acreditam na bondade da natureza e ignoram, por exemplo, a necessidade de análise dos lençóis freáticos utilizados para a rega (os quais podem estar contaminados).

Para a maioria dos consumidores das cidades, sem tempo nem capacidade económica para uma vida dependente da disponibilidade, do tempo e dos custos da agricultura biológica - apesar dos sabores perdidos, apesar dos eventuais riscos de alguns dos produtos manipulados, apesar da "batota" corporativa da indústria da produção e distribuição alimentar, apesar da pegada ecológica - a massificação da agricultura não é uma opção a evitar - é a única opção.

Não se trata de abdicar de defender uma agricultura mais amiga do ambiente, mais saborosa, socialmente mais justa - trata-se de o fazer com a consciência de que esta não é uma discussão dicotómica: o "bem" não está só do lado de "cá" e o "mal" não apareceu apenas porque meia dúzia de nababos quis engordar ainda mais a sua conta corporativa, e de reconhecer que, para muitos, o caminho de uma maior qualidade de resultados, de um comércio mais justo, de uma intervenção ambiental mais consciente, tem custos muitas vezes incomportáveis, implica sacrifícios muito longe de serem experimentados por quem tão despreocupadamente os parece culpar de não fazerem o necessário para a sua agenda para um mundo melhor, vencer.

Quando Pedro Bastos, com um belíssimo exemplar de pargo na mão, com um sabor incomparável e inantingível em piscicultura, referia que foram precisos 50 anzóis e 10 milhas náuticas percorridas para o pescar e a somente mais 3 exemplares, estava simultaneamente a chamar a atenção para os dois lados da questão, viabilidade económica e social /equilíbrio ecológico:

- a de que esta opção tem um custo incompatível com uma venda a preço baixo (que a massificação das grandes superfícies exige e as disponibilidades, económica e psicológica, dos consumidores aguardam); mas,
- a de que este tipo de actividade, se bem que permita uma melhor manutenção dos stocks, terá, por quilo de peixe pescado, uma pegada ecológica bem superior à da pesca massificada, por arrasto.

Pedro Bastos, da Nutripeixe e um belo exemplar, em rigor mortis, pescado a anzol

Quando Alexandra Prado Coelho recontou parte da sua experiência jornalística, intra e extra-muros, com dedicados produtores de belíssimos produtos - sentidos, amados, raros produtos - ao dar relevância ao carácter particular dos dois, realçou a sua natureza de excepção, aceitando implicitamente que a regra é outra, e que a sua excepcionalidade lhes advém de, só muito raramente, estes modos de produção serem viáveis.


Quando Luciana Bianchi, numa poética intervenção, afirmou que " todo o produto tem que ter nome e sobrenome", lamentava a uniformização do gosto, a ausência de pedigree que confira a cada experiência alimentar um carácter próprio, que transforme cada uma num momento único.


Não poderia estar mais de acordo, ainda queentenda ter ficado por fazer a pergunta que se imporia de seguida:

- Já que falamos de equilíbrios e justiça, estará esta Terra, esta organização de países e sociedades, preparada, pronta, para a radical mudança de modo de vida, de paradigmas, de sobrevivência que a adopção generalizada desse tipo de produção agrícola implicaria?

Ou, voltando ao início, será este apenas um lamento elitista de uma minoria privilegiada que para si reserva o direito aos prazeres do gosto?

Comentários

Paulina disse…
Muito bom post! Gostei mesmo de ler.
Pedro Cruz Gomes disse…
Obrigado, Paulina. Fico contente por ter gostado!
Muito bem e com coragem bem clara. Se calhar quem deveria ler, não vai ler!
Um abração. Virgílio
Pedro Cruz Gomes disse…
Obrigado, Virgílio, ainda bem que gostou. Grande abraço, também.

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