Coração, cabeça e estômago

Quarto andamento da 6ª sinfonia de Beethoven. Para os nossos ouvidos ocidentais, educados por décadas de audição, consciente ou  inconsciente, a solo ou ilustrando imagens - reais ou desenhadas -, estes compassos são, claramente, a ilustração musical de uma tempestade. Chuva, raios, trovões, desalinhada natureza e perturbação dos assistentes.



Estava a ouvi-la, aproveitando a chegada dos vídeos dos concertos Promenade deste ano, e perguntei-me se a naturalidade com que eu aceitava a sugestão do autor e de todos os musicólogos e amadores subsequentes, advinha do meu condicionamento social e cultural ou se, mesmo sem este background, qualquer ser humano, com um mínimo de sensibilidade auditiva e disponibilidade para escutar e se emocionar, concordaria com ela. E lembrei-me do comentário do meu mestre, o Professor Cruz Teixeira, "a Arte não precisa de ser explicada para existir - a Arte sente-se; basta estarmos disponíveis para a escutar".

Red on Red, Mark Rothko
(Fonte: http://onartetc.wordpress.com/2012/09/25/silence-is-so-accurate/)
Depois saltei - inevitavelmente - para a gastronomia, e lembrei-me do comentário que ouvi, há pouco tempo, a propósito das criações de Massimo Bottura: "pratos que precisam de explicação para se entenderem, não me parecem realmente conseguidos".

Acontece que eu gosto muito - sem nunca as ter experimentado, infelizmente - das propostas do grande cozinheiro italiano. Porquê? Porque me seduzem todos os piscares de olho, toda a surpresa, todas as escondidas relações que suspeito adivinhar, mais aquelas que não descubro. Porque me parecem criações de um homem que reflecte sobre o seu tempo mas também sobre o passado - o seu passado e o da cultura que o formou e que é comum aos seus conterrâneos mas também, de uma certa forma, comum aos seus contemporâneos.

Magnum da foie gras
(fonte. revista Interiors)
Julgo que, quando passarem os mandatórios cinquenta anos e, com a tranquilidade de que não os viveu, se olharem os anos do princípio do século, mais do que o artifício passageiro, o fogo-de-artifício radioso e de curta satisfação, será esta busca da emoção, a procura das secretas ligações que permitem a quem prova, institivamente saber que, mais do que comida saciadora de uma necessidade, aquele prato é uma possível resposta a quantas perguntas nós lhe queiramos fazer, que será valorizada como marcante da gastronomia deste período.

Cinco texturas e temperaturas de Parmigiano Reggiano
(Fonte: satedepicure.com)
"Coração, cabeça e estômago", inventou um dia Camilo, para titulo de um dos seus livros. Por esta ordem, também, são estes os alvos de Bottura e dos seus iguais. Sentimento, memória, sensação.

"A inspiração parece chegar quando estou relaxado: a ouvir música, a ver um filme, de férias, ou a conduzir. É como um relâmpago, onde tudo o que penso finalmente se congrega sob a forma de um prato"
(Fontes: satedepicure.com ;
http://www.delood.com/interiors/massimo-bottura%E2%80%99s-osteria-francescana-modena)
O que acham vocês?


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