Ao paço do caracol



Há dois anos, foram as vedetas de uma polémica, das mais animadas a que assisti, provocada por um texto da Professora Paulina Mata: chocados perante a audácia da senhora, ao salientar, no âmbito de um artigo sobre o Festival do Caracol Saloio, o interesse de um pastel de nata de caracoleta, alguns leitores mais conservadores inundaram a caixa de comentários com textos depreciativos. Com verdadeira paciência de santa, tentou explicar a autora que o que era relevante e merecia ser discutido era o acto de inovação / experimentação / desafio que a introdução - numa receita tão estabilizada, tão bem-amada, tão representante da gastronmia tradicional - de um elemento espúrio como o caracol representava. Não lhe interessando, por aí além, discutir virtudes, preferia que se reflectisse sobre o estatuto fechado das receitas tradicionais, sobre a liberdade criativa, sobre a validade de regras que ninguém prescreveu e muitos desejariam impor. (À boa maneira portuguesa, acabou tudo em abraços.)

Bom.

Confesso-me divido. Retirando aquelas coisas-para-turista-consumir-muito e com pouco prazo de validade, sou um defensor absoluto dos pasteis feitos de modo tradicional (assim como de todos os produtos oriundo de tradições seculares, dos enchidos aos queijos e à doçaria). Sou, no entanto, igualmente adepto da experimentação que procura respostas, interroga, desafia. Não me interessam propostas que aparecem fruto da moda ou de uma pouco preparada ideia ou que apenas são uma tentativa de comercialização de um excedente; interessa-me ser desafiado, confrontado, ser motivado a pensar, a reflectir. Experiências, propostas sobre pratos tradicionais são, no entanto, pratos novos, não melhoramentos de uma receita estabilizada pelos séculos de uso. E assim, como costuma defender Virgílio Gomes, podem inventar o que quiserem, desde que lhe ponham um nome original; depois cá estaremos para o apreciar e, eventualmente, gostar.

Posto este introdutório, avancemos então até Loures, anfitrião de mais um Festival do Caracol Saloio, local de peregrinação de muitos e meta para curiosos como eu, postado a descobrir as qualidades desse pastel doce de caracoleta.


Um pavilhão com capacidade para o que, numa conta a correr, me pareceram cerca de mil convivas, Portugal profundo, com música ao vivo em intermitência com o vozear gritante dos presentes, mesas e bancos corridos, empregados e caras bonitas em corrida para a todos atender.


Neófitos desconhecendo a hierarquia das várias casas em compita pela atenção dos forasteiros, decidimos cruzar o comprimento do menu com a longura da fila de espera, escolhendo a melhor relação, vencendo nos dois quesitos esta República.

Dezanove e pouco e a casa cheia. Carafes de sangria comunitárias com métricas palhinhas a incitar a contorcionismos de ocasião para obter o ansiado líquido.


E, finalmente, a mesa e os pedidos. Receitas base do dia-a-dia nacional, das chamuças ao Bulhão Pato, do caril à feijoada.





Sabores subservientes. Esperava, dada a paternidade "saloia" do evento, sabores mais puxados, menos subtileza. Confort food with a twist. O twist - & no shout - eram, claro, os interpostos caracois ou caracoletas que, sendo convidados, foram, no caso do caril e da feijoada, convidados especiais sem direito a grandes falas.

Quando com direito a papel principal, como no caso das Caracoletas à Bulhão Pato, a dança muda de ritmo, apresentando passos interessantes, a combinação de uma textura suave com o gosto apaladado do alho e dos coentros. Aí, temos um prato em que vale a pena aplicar o nosso apetite (a nossa gula?).

Confortados em amarmos Epicuro, dirigimo-nos ao realmente importante, foco da expedição - sendo a petiscada apenas introito, conversa para distrair apressados, boquinha para futuros brilhantes.

Lá estavam, em banca vizinha, dourados, apetitosos, diria quase ingénuos na sua aparente normalidade.


Surpresa, os oregãos funcionam muito bem com o recheio. Meia surpresa, quase não se dá pela presença do caracol. Conclusão: valem pela graça e pouco mais: ensinam as potencialidades dos oregãos em preparações doces, confirmam a pouca densidade de gosto das caracoletas.

Não caiu nem o Carmo nem a Trindade, nem a iconoclastia é tão aterradora. No contexto do Festival torna-se curiosidade com graça, fora dele não me parece que tenha pernas para andar. Podem(os) ficar os defensores da puridade tranquilos que não será por aqui que o futuro dos pasteis de nata ficará adulterado (talvez olhando ali para os lados de Belém a apreensão seja maior...).

De estômago saciado, foi tempo para mirar outras propostas e admirar a inventiva do nosso povo (como se soía dizer),




para admirar o profissionalismo de alguns expositores,






e para aprender.
Verdadeiro mestre é o que nunca para na sua busca de conhecimento...
Sobre os diversos tipos de alimentação que redundam em caracois de sabor diferente (e os mais baratos são, como os burros de outrora, alimentados a palha), as origens (muito do caracol consumido é importado de Marrocos),



o tipo (caracol mediterrâneo, o mais consumido, e caracol canário; caracoleta riscada ou a caracoleta moura),





Portugal no que tem de mais genuíno (a febre do petisco, a algazarra, a generalizada boa disposição), gastronomia regional: frequentar anualmente este Festival passou a ser uma obrigação.

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